domingo, 27 de julho de 2014

Homenagem de João Cabral de Melo Neto para Ariano Suassuna e João Ubaldo Ribeiro


COPA DO MUNDO 2014 NO BRASIL-UM GRANDE APRENDIZADO



O ANO DE 1958 FOI MUITO IMPORTANTE PARA MIM. PELA PRIMEIRA VEZ NA MINHA VIDA  OUVI PELO RÁDIO OS JOGOS DA SELEÇÃO BRASILEIRA NA SUÉCIA.  GANHAMOS  ATAÇA JULES RIMET ERGUIDA PELO CAPITÃO BELLINI. COMEÇAVA TAMBÉM O LONGO REINADO FUTEBOLÍSTICO DE PELÉ. EU TINHA 10 ANOS E QUASE NADA SABIA DA VIDA. SÓ QUERIA VIVER, VIVER. PARA OUVIR OS JOGOS A POPULAÇAO DA CIDADE SE REUNIA NA PRAÇA ONDE HAVIA UM AUTO FALANTE  INSTALADO NA SACADA DO CINEMA. NA FINAL DO CAMPEONATO A EMPOLGAÇÃO  SE TRANSFORMOU NUMA GRANDIOSA FESTA.O PAÍS ESTAVA EM TRANSE TOTAL TAMANHA ERA A ALEGRIA DE TODOS.ATÉ A CHEGADA DOS JOGADORES NO RIO DE JANEIRO, TODOS OS BRASILEIROS ESTAVAM RINDO A TOA, VIVENDO A VIDA EM SUA PLENITUDE.
 SÓ DEPOIS É QUE PUDEMOS VER OS JOGOS PELA TV ATRAVÉS DO VÍDEO TAPE, EM PRETO E BRANCO E A PARTIR DE 1970 PUDEMOS VER OS JOGOS A CORES EM TRANSMISSÃO DIRETA. HOJE SOMOS PENTACAMPEÕES. GANHAMOS CINCO COPAS. A CONTAGIANTE  EUFORIA DOS BRASILEIROS CONTINUOU A CADA QUATRO ANOS E SENTÍAMOS CADA VEZ MAIS O ENORME ORGULHO DE SERMOS CHAMADOS DE O PAÍS DO FUTEBOL, ALÉM DO SAMBA E CARNAVAL.UM PAÍS QUE CRESCE CADA VEZ MAIS, APESAR DE TUDO.QUE  ME PERDOEM O OTIMISMO.
CRESCI. FUI APRENDENDO MUITA COISA COM A VIDA. TORNEI-ME UM CIDADÃO. TRABALHEI, SUEI A CAMISA, ESTUDEI E HOJE TENHO CURSO SUPERIOR COMPLETO E MUITA EXPERIÊNCIA, GRAÇAS ACIMA DE TUDO A DEUS E AOS MEUS PAIS QUE SEMPRE ME INCENTIVARAM MUITO NOS CAMINHOS POR ONDE DEVIA ANDAR. PARA MIM, 1958 SERÁ SEMPRE UM ANO INESQUECÍVEL. PENSANDO NELE  QUERO  CONTINUAR APRENDENDO SEMPRE  A JOGAR BEM LONGE O PESSIMISMO, A CADA DESAFIO QUE A VIDA ME APRESENTAR PELA FRENTE. CO MO SE DIZ – “BOLA PRÁ FRENTE!”
 COM A COPA DESTE 2014 CHEGANDO AO FIM,QUERO AFIRMAR E REAFIRMAR A MINHA ALEGRIA DE SER BRASILEIRO. NÃO IMPORTA A DERROTA DE 7 A 1, PARA A ALEMANHA. QUERO FRISAR A MINHA SOLIDARIEDADE A ESTE GRUPO DE HERÓIS QUE, COM DISSE DAVI LUÍS, CHORANDO MUITO E TAMBÉM NEYMAR,” A GENTE SÓ QUERIA FAZER O POVO BRASILEIRO SER MAIS FELIZ”. FELIPÃONA COLETIVA PÓS JOGO, CONCLUIU QUE “A VIDA CONTINUA...” E CONTINUARÁ SIM E O BRASIL SEGUIRÁ SEU RUMO DE GRANDE NAÇÃO.
 ACOMPANHEI ,  PELA PRIMEIRA VEZ EM MINHA VIDA, TODOS OS JOGOS ESTE ANO E TIVE GRANDE ORGULHO DE VER A BIOGRAFIA DE TODA A EQUIPE, JOVENS DE ORIGEM HUMILDE COM O SONHO DE SEREM JOGAGORES DE FUTEBOL.  TODOS NÓS, COM CERTEZA APRENDEMOS MUITO COM ESTA COPA, BEM DIFERENTE DAQUELE DISTANTE 1958 QUE NOS


 ENCHEU DE JÚBILO. OS JOVENS DE HOJE TERÃO AINDA MUITA COISA A APRENDER. A CHAMADA GERAÇÃO BRASIL CRESCERÁ COM MUITO TALENTO E SAÚDE E SABERÁ GANHAR E PERDER, PERDER E GANHAR, POR QUE ISTO FAZ PARTE DA VIDA.
 OS JOGADORES DA ATUAL SELEÇÃO HOJE NÃO SÃO PERDEDORES, POIS LUTARAM ATÉ O LIMITE MÁXIMO DE SUAS FORÇAS.  E  LUTAR, É CLARISSIMO, TAMBÉM FAZ PARTE DA VIDA.OUTRAS EQUIPES DE FUTEBOL TAMBÉM GANHARAM OU PERDERAM E VOLTARAM PRÁ CASA

 ACHO QUE É ISTO QUE A ATUAL SELEÇÃO QUER FAZER: VOLTAR LOGO PRÁ CASA, REVER A FAMÍLIA E DESCANSAR, REFLETINDO SOBRE TUDO O QUE ACONTECEU. FRED, HULK, THIAGO LUÍS E OS OUTROS  GANHARÃO  MUITOS JOGOS AINDA , HONRANDO A CAMISA VERDE AMARELA. CONTINUEM PORTANTO,  COM A MESMA GARRA INICIAL,COM ALEGRIA E A AUTO ESTIMA BEM ELEVADA. TUDO PASSA... TUDO PASSA...  AS FERIDAS SE CICATRIZARÃO COM O TEMPO, QUE É O MELHOR REMÉDIO PARA TODAS AS DORES. EU, COMO TODOS OS TORCEDORES, ESTOU DE CORAÇÃO SEMPRE ABERTO, OSTENTANDO ETERNAMENTE O FAMOSO ‘V’ DE VITÓRIA.

A “GRETA GARBO” DA VELHA LAPA CARIOCA



“GRETA GARBO” SEMPRE APARECIA NAS NOITES E MADRUGADAS DE SEXTA E SÁBADO. ISSO LÁ POR VOLTA DE 1939-40, QUANDO O CINE METRO 0DEON EXIBIA   FILMES DA DIVA DE HOLLYWOOD, “O ANJO AZUL” E OUTROS.OS FREQUENTADORES HABITUAIS DA CINELANDIA,DO BAR AMARELINHO E DO CAFÉ NICE PARAVAM PARA COMENTAR A INCRÍVEL SEMELHANÇA DAQUELA MISTERIOSA MOÇA, COVER E FÃ DE CARTEIRINHA DAFAMOSA ATRIZ QUE NO AUGE DA FAMA E BELEZA DECIDIU ABANDONAR TUDO E VIVER RECLUSA NUM APARTAMENTO DE COBERTURA, EM MANHATAN, NOVA IORQUE.
A GRETA GARBO DA LAPA E ADJACENCIAS FAZIA A SENSAÇÃO DOS JORNALISTAS QUE SEMPRE COMENTAVAM ALGO SOBRE ELA NAS PÁGINAS DE ENTRETENIMENTO DOS JORNAIS E REVISTAS DA ANTIGA CAPITAL FEDERAL, COMO “O GLOBO “ e “O CRUZEIRO” E NOS PRIMEIROS NÚMEROS DA “MANCHETE”, DA EDITÔRA BLOCH.SAIU ATÉ, COMO CURIOSIDADE, NA FAMOSA COLUNA SOCIAL DO IBRAHIM SUED.
A “GRETA GARBO”BRASILEIRA FAZIA SUCESSO ONDE PASSAVA COM SUA AURA DE SOLIDÃO E MISTÉRIO E CHEGOU A FAZER PEQUENOS SHOWS COM OS BADALADOS TRAVESTIS  “SOPHIA LOREN” E “IVANÁ”,PIONEIROS NA ARTE DO TRANSFORMISMO E COM O COMICO COLÉ NOS ANOS 50,NO TEATRO RIVAL, SOB A DIREÇÃO DE CARLOS PINTO,FAMOSO DIRETOR DE TEATRO DE REVISTA.ERA COMADRE DE ELVIRA PAGÃ E MORAVA NUMA PEQUENA CASA NA SUBIDA DO MORRO DE SÃO CARLOS, VIZINHA DO SANFONEIRO LUÍS GONZAGA, O REI DO BAIÃO COMEÇANDO SUA CARREIRA NAS RÁDIOS E EM SHOWS ITINERANTES NO SUBURBIO DA CENTRAL.
MAS QUEM ERA “GRETA GARBO”.  MOÇA POBRE DO INTERIOR DO ESTADO DO RIO, ERA DE MADALENA, CIDADE ONDE TAMBÉM NASCEU DERCI GONÇALVES. ATRAÍDA PELA CIDADE GRANDE, TRABALHOU COMO OPERÁRIAE DEPOIS COMO RECEPCIONISTA NA RÁDIO NACIONAL ONDE CONHECEU MUITOS CANTORES E CANTORAS. PARA GANHAR UNS COBRES A M AIS CHEGOU A CUIDAR DE ALGUMAS COBRAS DE LUZ DEL FUEGO, QUE VIVIAM NUM CATIVEIRO. FOI UM JORNALISTA QUE, CURIOSO, PESQUISOU SUA BIOGRAFIA, EM MEADOS DOS ANOS 70, QUANDO O SEU REINADO JÁ TINHA TERMINADO A  MUITO TEMPO E JÁ QUASE NIN GUÉM SABIA QUEM TINHA SIDO ELA. SEDUZIDA E ABANDONADA PELO FILHO DE UM FAZENDEIRO NÃO TEVE OUTRA OPÇÃO A NÃO SER FUGIR DE CASA, NAQUELA ÉPOCA.
NA MATÉRIA SOBRE OS TEMPOS DO TEATRO DE REVISTA E SEU AUGE, O REPÓRTER DERSCOBRIU QUE ESSE ERA O DESTINO DE MUITA DESSAS MOÇAS. VINHAM DE LONGE PARA FUGIR DE ALGUM ESCANDALO NA FAMILIA E VÁRIAS DELAS ACABAVAM NA PROSTITUIÇÃO OU QUASE, FICANDO APENAS COMO CORISTAS, CANDIDATAS A CANDIDATAS A ESTRELAS DO REBOLADO E DEPOIS VIRAVAM POEIRA, QUANDO A IDADE AVANÇAVA E AS IMPERDOÁVEIS RUGAS COMEÇAVAM A APAGAR O VIÇO DA MOCIDADE.



 “GRETA GARBO”, CONTUD0 TEVE MELHOR SORTE. NÃO VIVEU RECLUSA. NUNCA FOI DE RECUSAR SERVIÇO E TRAMPAVA PRA VALER, AQUI E ALI, PRÁ BAIXO E PRÁ CIMA, COMO DIARISTA.FOI QUANDO CONHECEU  TEMPOS DEPOIS A ATRIZ RUTH DE SOUZA, QUE FEZ CARREIRA SÓLIDA NA CIA. VERA CRUZ  A PARTIR DO FILME “SINHÁ MOÇA”. FOI UMA GRANDE COINCIDENCIA, POIS A ATRIZ   ATÉ HOJE, COM QUASE 90 ANOS, JÁ ERA ADMIRADORA PROFUNDA DE GRETA GARBO E DE FILMES CLÁSSICOS DO PASSADO. SUA COLEÇÃO DE FILMES É ENORME E CONHECIDA DE TODOS OS AMANTES DA SÉTIMA ARTE. ADMIRÁVEL RUTH DE SOUZA, QUE BRILHOU EM VÁRIAS NOVELAS NA REDE GLOBO E ACOLHEU”GRETA GARBO” COMO SECRETÁRIA E  COMO GRANDE AMIGA.

 IMAGINO AS DUAS REVENDO  “O ANJO AZUL” CONFORTAVELMENTE,  COMENDO PIPOCA,COMENTANDO DETALHES E COM A VIDA PASSADO A LIMPO,DEPOIS DE TANTOS SACRIFÍCIOS PERTINENTES A PRÓPRIA EXISTENCIA. “VELHAS AMIGAS” E A VIDA COM MUITA ARTE.

NO MAMBEMBE CIRCO TEATRO DA VIDA


E SE UMA DAQUELAS FACAS PONTIAGUDAS E AFIADÍSSIMAS ERRASSE O ALVO E PENETRASSE FUNDO NO SEU CORAÇÃO. SERIA UM SHOW MACABRO NO PICADEIRO DAQUELE CIRCO MAMBEMBE QUE HÁ MUITOS ANOS PERCORRIA PEQUENAS CIDADES DO VALE DO PARAÍBA, DO SUL DE MINAS E DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. MAS, COM TODA CERTEZA, ISSO JAMAIS ACONTECERIA POIS  ZACARIAS ERA EXÍMIO ATIRADOR E ZELAVA COM TODO CARINHO PELA SUA PROFISSÃO INICIADA AINDA NA ADOLESCENCIA, COM O TIO.
E O SEU NÚMERO AINDA ERA UMA DAS POUCAS ATRAÇÕES APRECIADAS PELOS ESPECTADORES, PRINCIPALMENTE PELAS CRIANÇAS E PESSOAS DE MEIA IDADE QUE APLAUDIAM O ARTISTA.  A PLATÉIA ESTAVA CADA VEZ  MAIS ESCASSA MAS COM TENACIDADE  DEVIDO AO ESPÍRITO ARTÍSTICO E FALTA DE OPÇÃO TAMBÉM AQUELA TRUPE  SEGUIA EM FRENTE O SEU DESTINO DE LEVAR UM POUCO DE ALEGRIA À GENTE POBRE DA PERIFERIA.
CONCENTRADA EM SEU NÚMERO, DORALICE PENSAVA EM SUA FILHA QUE HAVIA DEIXADO AOS CUIDADOS DE DONA OLIVIA,UMA CATÓLICA FERVOROSA E MUITO CARIDOSA, MORADORA DO BAIRRO DO SÃO JOÃO, EM JACAREI, NUMA PASSAGEM POR AQUELA CIDADE.APAIXONADA PELO MALABARISTA RAFAEL DECIDIU FUGIR COM O  CIRCO. A MENINA RAFAELA, DEVIA TER AGORA QUASE 9 ANOS E ESTAR LINDA. NÃO TINHA CONDIÇÕES DE LEVAR A CRIANÇA  POIS VIDA CIRCENSE NÃO É FÁCIL, POR MAIS AMOR DE MÃE QUE TIVESSE.DORALICE TINHA FAMÍLIA EM SANTA BRANCA,MAS FOI EXPULSA DE CASA PELO PAI POR CAUSA DA VIDA BOEMIA QUE LEVAVA E DA GRAVIDEZ ,FORA DE UM CASAMENTO, DA FILHA. GENTE DA ROÇA, MUITO SEVERA, HONRADA, DE MORAL E BONS COSTUMES  ACIMA DE TUDO.E DESDE A INFANCIA DORALICE PARECIA SER  MUITO SONHADORA.
MAS SENTIA MUITA FALTA DA MENINA QUE VIU POUCAS VEZES DURANTE SUA VIDA ITINERANTE. SEMPRE LEVAVA PRESENTES, BRINQUEDOS, DOCES E ROUPAS, MAS VOLTAVA PARA O CIRCO COM UM VAZIO ENORME  POIS  A AMAVA DE VERDADE, APESAR DE TUDO.  DOÍA TAMBÉM EM SEU CORAÇÃO A AUSENCIA DO PAI QUE NUNCA SE INTERESSOU EM VER A FILHA. O CIRCO O DOMINAVA POR INTEIRO.



O GOSTO PELA ARTE COMEÇOU QUANDO DORALIDE FOI CONVIDADA A PARTICIPAR DE UM GRUPO TEATRAL AMADOR QUE ENCENAVA PEÇAS TRAGICOMICAS DA VIDA BRASILEIRA, DE MARTINS PENA A DIAS GOMES ENTRE OUTROS AUTORES. FOI UM SALTO EM SUA VIDA. ADQUIRIU GOSTO POIS  O GRUPO TAMBÉM PERCORRIA VÁRIAS CIDADES. O AUTO DA COMPADECIDA ERA BASTANTE APRECIADO, ASSIM COMO COMÉDIAS BASEADAS NA VIDA DE MAZZAROPI, SEMPRE ROMANCEANDO  A VIDA DE PERSONAGENS CAIPIRAS, COMO OS DA NOVELINHA DAS SEIS –“MEU PEDACINHO DE CHÃO”, NA REDE GLOBO.
PENSANDO NA FILHA, DORALICE SE CONCENTRAVA AINDA MAIS EM SEU NÚMERO. PARA AMORTECER A DOR DA SAUDADE FICAVA RÍGIDA E DE OLHOS BEM FECHADOS. CONFIAVA EM SEU PARCEIRO E SÓ ABRIA OS OLHOS QUANDO JÁ ESTAVA CERCADA PELAS FACAS DOS PÉS A CABEÇA, APENAS UMA DELAS ALGUMAS VEZES SE FINCAVA NO BABADO DO VESTIDO COLORIDO PERTO DO OMBRO, NADA MAIS. A PLATÉIA EM SUSPENSE  VIBRAVA AINDA MAIS QUANDO   ISTO OCORRIA.MAS ERA APENAS UM TRUQUE
UMA NOITE, EM TAUBATÉ, NO AFASTADO BAIRRO DA ESTIVA,NUM ACAMPADO PERTO DO RIO PARAÍBA, AO ABRIR OS OLHOS DEPOIS DO ESPETÁCULO, NEM ACREDITOU NO QUE VIU. DONA OLIVIA VINHA EM SUA DIREÇÃO, COM RAFAELA, COM 12 ANOS, PELA MÃO, ATRAVESSANDO A PLATÉIA. PARECIA UMA CENA TEATRAL, MAS NÃO ERA. ‘’MÃE EU TAMBÉM QUERO SER DE CIRCO QUEM NEM A SENHORA!”
 DISSE RAFAELA, ABRAÇANDO A MÃE QUE AGORA TAMBÉM CHORAVA COPIOSAMENTE, BORRANDO TODA A MAQUIAGEM EXAGERADA NO ROSTO. E AGORA ERA O PEQUENO GRUPO DE ESPECTADORES, QUE AO SE DAR CONTA DO QUE ESTAVA SUCEDENDO, TAMBÉM CHORAVA E APLAUDIA. APLAUDIA E CHORAVA.

 E POR UM DESSES RARÍSSIMOS  MOMENTOS DE PURA MAGIA, TALVEZ DITADO PELO DESTINO SOBRE O QUAL NÃO PODEMOS TER NENHUM CONTROLE, VIDA E CIRCO, CIRCO E VIDA SE MISTURARAM. NO MAKING OFF DA VIDA, MÃE E FILHA VIVEM EM CENA AINDA HOJE POR AÍ. RAFAELA AGORA É UMA DAS MAIS FAMOSAS TRAPEZISTAS DO CIRCO QUE, COM SEU TALENTO, BELEZA E SIMPATIA TEM CONQUISTADO E TRAZIDO DE VOLTA, MUITOS AMANTES DO CIRCO  EM BUSCA DE SONHOS. NEM QUE SEJA  APENAS  NUMA NOITE DE VERÃO. 

quarta-feira, 2 de abril de 2014

Saudades de um Brasil na memória de todos.



Em nome da história e da tradição hoteleira no país, sou da opinião que se deve manter os nomes originais destes 2 ícones turísticos e brasileiros: o Copacabana Palace Hotel (da tradicional família Guinle) e o Hotel Gloria, no Flamengo.
Grupos empresariais poderosos estão querendo mudar os nomes dos dois hotéis. Muitas pessoas não concordam com isso.
Na minha infância levado pelos meus pais, passei as minhas primeiras férias no Rio de Janeiro. Uma tia minha, já falecida, que morou muitos anos no Rio, com ajuda de uma amiga, funcionária dos dois hotéis, me levou a conhece-los de perto e na recepção fiquei deslumbrado com o luxo dos 2 hotéis que hospedaram gente famosa do mundo todo, entre eles muitos presidentes, estadistas e artistas de cinema. Os bailes de carnaval nos dois hotéis eram referencias na alta sociedade do mundo todo. Jamais esqueci esse dia, mesmo porque estava caindo uma chuva fininha naquele tórrido calor carioca. Depois, já adulto muitas vezes passei em frente de ambos, na descoberta do mundo. Na minha memória de jornalista e educador, continua o encantamento.

Meu planeta quintal

Depois de algum tempo, volto a postar no blog um pequeno pedaço da natureza.
























Meu quintal, minha fonte de inspiração.

quarta-feira, 26 de junho de 2013

AVENTURAS DE BATE VOLTA,UM CÃO FILÓSOFO


Naquela manhã, meio chuvosa,ao acordar, num canto da praia de São Francisco, em São Sebastião, Bate Volta se deparou com a costumeira vasilha de comida que o Frei Lázaro tinha lhe deixado, bem perto de sua boca. “Ah, como é bondoso esse frei, nunca deixa os cães que batem à sua porta, ficar com fome!”Pela portinhola que dá acesso ao convento, viu que os freis já estavam rezando, compenetrados.Eles rezam por um mundo melhor, pensou, pois estava meio chateado com a vida canina, pois na tarde anterior teve que apartar uma briga feia do casal Rambo e Rumba, sem raça definida como ele, amarelo, por ciúmes de uma outra cadela que apareceu, ninguém sabe de onde, toda lampeira, no cais das balsas de Ilhabela. “Eu não devia ter me metido em briga de casal. Agora eles não vão mais falar comigo por uns tempos, mas deixa prá lá”.



Estava com a barriga roncando de fome pois quase raspou a comida na pequena tijela. Bebeu um pouco de água, esticou o corpo como alongamento para se animar e livrar a mente das trevas da noite, pois tinha tido um sonho estranho durante a madrugada, como se alguém o tivesse chutado violentamente, mas não se lembrava muito da cena. E assim saiu para o dia meio cinzento e ficar indo e vindo nas balsas entre São Sebastião e Ilhabela. Início de inverno, junho de 1959, mas não estava muito frio ainda.”Vamos ver o que vai acontecer na minha vida hoje?”pensou, latindo meio alto para que todos os outros cachorros de rua percebessem ali a sua presença, demarcando território.

Ao chegar ao cais percebeu que um velho cargueiro panamenho tinha ancorado de madrugada, com a proa voltada para norte, descarregando carne dos frigoríficos do Rio Grande. O cheiro da carne aguçou o seu faro e, num descuido do marinheiro, penetrou no navio por uma escada baixa.Tinha a intenção de sair logo sem ser notado,assim que abocanhasse algum osso ou pedaço de carne. Mas não percebeu que já estava desatracando e deixando o canal para seguir viagem. Só escutou alguns apitos do vapor. No convés da proa só viu ao longe a cidade e a Serra do Mar, meio encoberta por nuvens brancas. “E agora meu Deus, vão me jogar do mar, que é que eu faço!” Pensou nos amigos, mas agora já era tarde, o melhor que tinha que fazer era se esconder em algum lugar do porão, para evitar o pior, pois, de repente, tinha virado um cão clandestino. Só deu tempo de ver uma revoada de albatrozes e quero – queros grasnando furiosamente, como se tivessem dando gargalhadas de sua imprudência.



Depois de percorrer longos corredores, só ouvindo o roncar das máquinas, escolheu um cantinho quentinho atrás de uma das caldeiras. Adormeceu rápido como se quisesse esquecer a besteira que fizera ao entrar escondido no navio. Só depois de quase um mês é que o marinheiro Deusdará, um pernambucano calejado em viagens marítimas percebeu a presença de Bate Volta, meio arredio, assustado com medo de ser jogado no mar. Começou a fazer mesuras, latindo baixo e se rastejando, demonstrando humildade até se aproximar das pernas do marinheiro, que, ao contrário do que pensava, começou a alisar seu pelo, carinhosamente. “Vem cá meu bichinho, vem aplacar também a minha solidão no mar!”. E assim o cão percebeu que tinha conquistado um amigo e esse não lhe faria mal nenhum. “Você está um pouco magro, vem cá, vou lhe dar comida!”. Até então o cachorro só tinha comido, às escondidas, sobras da cozinha do navio e bebido água de chuva empoçada no convés. Rapidamente voltava a se esconder.Agora estava seguro e virou uma espécie de mascote podendo ir e vir a hora que quisesse pelo longo convés e outras partes do navio. Só evitava as bocas das fornalhas ardendo em fortes labaredas, em roncos assustadores. “Parece o inferno!”, pensava Bate Volta, saindo de fininho com o rabo entre as pernas.



Ganhou a amizade da marujada e quando o barco cruzou a Linha do Equador, como é de costume no mar, Bate Volta foi até homenageado, ganhando várias carícias na cabeça e farta comida, principalmente muito peixe frito ou cozido de Tanisho,o cozinheiro chefe, chinês de Hong Kong, há muitos anos no mar, assim como os comandantes, verdadeiros lobos dos Sete Mares. “Foi Netuno que mandou você para nos alegrar, Bate Volta”, disse, afirmando perante todos que ali estava um cão muito especial, amigo, companheiro fiel. Um dos marinheiros, depois de um certo tempo, descobriu seu nome. “É o cachorro do cais de São Sebastião, só pode ser ele! Muitas vezes eu vi ele por ali. Todos gostavam dele, até as meninas do Cabaré da Zilda, em Ilhabela, que tinham por ele verdadeira afeição. Latia, avançava e mordia a perna de algum marinheiro que, bêbado,quisesse bater numa delas”.



E assim Bate Volta deu a volta ao mundo. Em Cuba assistiu o desfile da Revolução feita pelos comunistas Fidel Castro e Che Quevara. Não entendia nada daquela movimentação toda, mas percebeu a alegria dos marinheiros embriagados da liberdade que proporcionava aquela mistura de Rum de Havana com Coca Cola americana, limão e gelo. Ficou um pouco bêbado também quando um marinheiro colocou um pouco numa tigela, para ver se ele gostava. Descuidou a pon to de cair no mar. “Cachorro ao mar, cachorro ao mar!”,gritou Zé Carioca, pulando na água e resgatando Bate Volta. Deitados no cais, secando ao sol, parecia que homem e cão riam à toa, etílicos que estavam, uma farra sem outras conseqüências, enquanto num bar do cais rolava um rififi daqueles, envolvendo mulheres da vida e militantes pró e contra a ditadura socialista que estava começando naquela ilha do Caribe. “Bate Volta, deu um longo suspiro depois de muito tempo. “Como estarão Rambo e Rumba?” Bateu a Saudade.



Em Nova Iorque, numa folga do navio, percorreu o Harlem e ouviu muita música Negra. Foi parar em Times Square. Pela enorme alegria e dança coletiva das pessoas que se abraçavam e se beijavam, Bate Volta, pensou “Só pode ser final de ano. “Happy New Year”, diziam as pessoas, ao som de Jazz. Passeou pela 7ª.Avenida e percorreu a Broadway, admirando enormes letreiros daqueles musicais famosos como “Hawai”, com a estrela Mary Martin e “West Side Story”, com Rita Moreno. Assistiu a um Tributo a Josephine Backer, a dançarina, cantora e atriz norte americana, a “Venus Negra”, que abalou a França nos anos 20 e 30. Sempre em companhia dos marinheiros, voltou para o navio. Ainda deu a volta e chegou a São Francisco, no Oceano Pacífico, passando por baixo da ponte Golden Gate. “Grande, muito grande”.No cais onde o vapor ficou atracado por alguns dias, ficou amigo de Elvis Presley e Natalie Wood, estrelas de Hollywod, num set de filmagem de “Férias do Amor”. Todos queriam ficar com aquele cão amarelo sem eira nem beira.



Não deu tempo. O navio já estava apitando para voltar para o “Brazil”. O coração de Bate Volta se acelerou e ele quase teve um treco quando, percebeu que era isso mesmo pela voz do seu amigo Deusdará – “Oh Yes, Oh Yes my friend Bate Volta!, estamos voltando para o Brasil”. Bate volta ficou tão alegre, mas tão alegre que acabou mixando no convés, correndo, prá lá e prá cá, lambendo a mão do marinheiro que também ria de satisfação, pois já estava longe da família no Rio de Janeiro, há meses.



O navio parou antes em Recife e Salvador,onde Bate Volta passou, com Tanisho,o cozinheiro de bordo, em frente ao Teatro Castro Alves, onde um teatro de revista homenageava Carmem Miranda. “Estou perto, estou chegando...”, latia o cão tão animado que uma baiana, vendendo acarajé e vatapá na porta do teatro, comentou – “Nossa, será que este cão está fazendo propaganda da peça, pois parece estar rodopiando e cantando ‘Tico-Tico no Fubá’” na calçada.



Uma semana depois,com sua carga de sonho e fantasia,o navio adentrou o canal de Ilhabela e ancorou no porto de São Sebastião. Com o coração na boca, latindo, latindo, de pé no convés, não podendo mais agüentar, Bate Volta voltava prá casa. Viu no cais, como num filme musical, Rambo e Rumba e a cachorrada toda de Ilhabela e São Sebastião dançando e latindo animadamente, esperando por ele. Muitas pessoas, homens, mulheres,os franciscanos e, naturalmente, muitas crianças, gritavam “Viva Bate Volta, Viva, vem prá rua, vem,vem prá rua!”. Como num passe de mágica, todos tinham sido convocados para assistir a chegada de Bate Volta. Estranha rede social esta feita com muito amor, ternura e sensibilidade, numa época em que a Internet ainda estava engatinhando. Faro, puro faro, sentidos que extrapolam qualquer noção de conhecimento, sem sombra de dúvida.



E naquela barbearia, próximo do centro histórico de São Sebastião, assim continua escrita esta mensagem única –



“Desta vida, deste mundo,nada se leva. Só se deixa. Então deixe o seu melhor sorriso, seu maior abraço, sua MELHOR HISTÓRIA, toda COMPREENSÃO e do AMOR a MAIOR PORÇÃO”.



Alguns anos depois, no final de sua vida, que chega para todos nós, seres viventes, Bate Volta partiu, chorado por muita gente. Ele que era amado, adorado, estimado por muita gente nesta terra, foi enterrado nas areias cálidas da Praia Deserta, com honras de herói dos Sete Mares. Na última hora, alguém,discretamente colocou em sua cabecinha amarela, como derradeira homenagem, um boné de Marinheiro. Vai com Deus, “Véio”. Conosco ficará apenas, como inesquecível lembrança, seu pequenino, mas grande coração.



quinta-feira, 11 de abril de 2013

UM CACHORRO CHAMADO BATE VOLTA



A mão forte do atracador portuário me ajudou a subir na balsa, porque o mar, naquela tarde nublada de verão, com forte ventania, prometendo chuva, estava mais agitado do que o normal. Muitos turistas e moradores vindos de Ilhabela ocuparam os acentos disponíveis nas laterais, enquanto bicicletas, motos, carros, bugs e pick ups, entravam e se posicionavam no centro para descerem rapidamente no cais de São Sebastião. Percebi o cuidado profissional que ele tinha com as pessoas, principalmente crianças e idosos, alertando sobre o mau tempo e o balanço das ondas.
Foi aí que pude ver um cachorro, o mesmo da ida para Ilhabela. Percebendo minha curiosidade o atracador disse “Ah! Esse aí é o Bate Volta, vai e vem com as balsas o dia todo e já estamos acostumados” Com um olhar distante parecia admirar, como os turistas, o mar, os luxuosos iates e lanchas, os grandes petroleiros ancorados e a maior e mais bela ilha do Atlântico Sul se distanciando aos poucos.
Bate Volta, nome original para um cachorro comum, de um amarelo desbotado, acostumado a receber afagos de todos e   abanar o rabo com satisfação. Não estava sujo com os cachorros de rua, abandonados. Engolia rapidamente pedaços de pão e biscoitos jogados pelas pessoas. Acho que assim ficava se alimentando o dia todo. Navegante solitário,poderia ter sido um pirata do Caribe ou bucaneiro dos Sete Mares em vidas passadas?! E Agora estava ali, já há alguns anos, cumprindo parte de seu destino nesta vida.
Solidária, um pouco temerosa com a travessia, uma jovem professora sentou-se ao meu lado e acariciou o cão que se acomodou aos nossos pés. “Tenho em casa, praia do Engenho D’Água, dois cães de raça Labrador e dois Vira Latas que convivem numa boa. Eu e meu Mario Cláudio nos acostumamos a criar cachorros e agora a nossa vida é assim. Levamos eles uma vez por semana a brincar na praia e se divertem nadando. È uma alegria vê-los assim. As pessoas não deviam maltratar e nem abandonar seus animais, pois  eles têm enorme admiração pelos seus donos e sofrem com isso, se pudessem sentir seu coraçãozinho.”
Com Bate Volta, que vai ficar sempre na minha memória, também deve ser assim. Ficou amigo dos atracadores do DERSA e dos turistas e moradores das duas cidades. Nunca vai estar só, creio, pois é um cão de bom coração e de bem com a vida.O refúgio de Bate Volta, conforme explicou o atracador é no Condominio dos Franciscanos, na Praia Deserta.
Ele sabe se defender e deve ter espalhado muitos filhotes por aí. Desejo que tenham sido acolhidos por pessoas de boa  índole, como a jovem professora e seu marido que escolheram Ilhabela como refúgio. Bate Volta decidiu ficar perambulando nas balsas. Um cão filósofo, diferente, como mostram alguns filmes que deixam as pessoas comovidas, até as lágrimas, saindo dos cinemas.
Tenho uma amiga, Cecília, que cria 16 cachorros e cachorras num amplo quintal. Uma outra, que mora sozinha, não se importa de ter que limpar todo dia coco e xixi de seus 4 cães. Quando ela chega em casa, depois do trabalho, é sempre uma festa. A casa parece estar sempre iluminada, bem guardada e em paz.
 
  

Fiquei olhando a outra balsa se distanciar levando Bate Volta em sua viagem cotidiana.  No seu vai e vem o dia todo. Algumas vezes fica nadando com os meninos pobres que se jogam das pedras na água, como único divertimento. Fiquei pensando também que as pessoas deveriam ser como aquele atracador que, com sua força, agilidade e habilidade, desembarca os passageiros deixando-os seguir seus caminhos sãos e salvos. As estradas desta vida, muitas vezes, têm trechos ingratos.
Se pudesse entender, o que Bate Volta teria a dizer ao ver a enorme faixa de protesto “Porto Não”, colocado por ambientalistas contrários à ampliação do porto de São Sebastião, num paredão da ilha, para que todos possam ver.
E o que ele estaria sentindo, esta semana, com o devastador estrago causado nas praias do Litoral Norte por um vazamento de óleo motivado pelo defeito na válvula de um navio atracado no porto de São Sebastião?Vários cães, seus amigos, que moram em baixo do cais ficaram todos sujos de óleo, coitados, um horror, pois entraram na água desprevenidos.
O óleo prejudicou também o ganha pão dos pobres pescadores que vão quase ao alto mar para trazer os melhores peixes à nossa mesa.  Há mais de dez anos não acontecia um desastre ecológico desse porte.
Com certeza Bate Volta regressou cabisbaixo ao seu refúgio na portaria do Condomínio dos Franciscanos, onde depois de uma tigela de sopa quentinha, dada pelo Frei Lázaro, dorme, mas vigia o sono dos religiosos ali instalados. Com todo o seu afeto de cão. Um cão chamado Bate Volta. Uma gratificante lição de ternura. Uma a mais, dando força à nossa jornada neste mundo.

segunda-feira, 8 de abril de 2013

A OUTRA FLEUR DO CARIBE






Base Aérea de Natal – Rio Grande do Norte – 7 de setembro de 1943



“O que esta carioca metida à besta está fazendo aqui se nem mulher de oficial ela é!” Anabela realmente não tinha sido mulher de oficial da Aeronáutica, mas fazia jus ao nome. Era linda de doer. O que causava muita inveja e ciúme nas imponentes mulheres bem ou mal casadas com militares das mais altas patentes, em cima do palanque com seus vestidos brancos ou coloridos, luvas e orquídeas no decote. Tudo bem tropical.

Era viúva de um reles, mas esforçado 1º.sargento, mulato sarará atlético e de grandes olhos verde – mar, que tinha, infelizmente, morrido numa epidemia de tifo em Recife ao beber, desprevenido, água contaminada de uma cacimba, ao lado de uma pista de pouso do recém inaugurado Aeroporto de Guararapes.

O fato é que Ana ficou viúva aos 26 anos e com um único filho de cinco anos para criar. E lá estava ela, elegantérrima, ao lado do palanque oficial jogando os cabelos louros ao vento, com óculos escuros Ray- Ban, por causa do sol, nesta terra de Deus e o Diabo, rodeada de militares, que, querendo chamar sua atenção, agradavam e pegavam o garoto no colo, com sua roupa de marinheiro.

Ela sabia, entretanto, da infidelidade do falecido. Por ser também belo, musculoso e atencioso com as mulheres, vivia de namoricos com várias mulheres de oficiais, traçando mesmo algumas delas, na ausência dos maridos, em missões aéreas na costa do Atlântico Sul, com a Marinha de Guerra, perseguindo submarinos (alemães?) que bombardeavam navios brasileiros até o Rio de Janeiro.

Ana gozava de grande popularidade entre os soldados e os oficiais, não só por ser viúva jovem e bonita, mas porque era sagaz, moderna, inteligente e estava sempre de bom humor, apesar da “guerra particular que enfrentava com algumas cunhadas que viviam aporrinhando sua cabeça, jogando na cara dela “esta branca que roubou e matou nosso irmão, um dia ela me paga”, frisava Bil, uma solteirona horrorosa, mal humorada e mal amada.

“Vamos lá rapaziada, estamos em guerra, mas não podemos desanimar”, era o seu bordão. Chegava e iluminava a base aérea com seu enorme sorriso, de alvíssimos dentes. “Ana está por aí!”, corria a notícia. Já dirigia carro numa época em que isto ainda era incomum entre as mulheres. Rivalizava com alguns soldados na direção dos jipes, subindo e descendo as dunas de Ponta Negra.

E não recusava, boa de copo que era (sem perder a noção, sabendo distinguir muito bem o que era um ameno bate papo, uma cantada ou um assédio mais ousado e apaixonado), uma latinha de cerveja americana Buddweiser bem gelada, (é... já tinha naquela época!), um Caju Amigo (Suco de Caju, Vodka, açúcar e gelo à vontade) ou uma Cuba Libre ( Gim, Coca Cola, limão e gelo picado), que naquele calor dos Trópicos, era um drinque (drink) hiper, super, mega, plus, delicioso e refrescante, animando a folga dos militares, no bar da Base, onde, nas folgas, discutiam de tudo: mulheres, filmes de Hollywood,música nova a política de Getúlio Vargas ou a beleza das praias, entre elas a de Cabo Branco, em João Pessoa, na Paraíba.

Ou então dançavam, meio desengonçados, qualquer ritmo quente: samba, salsa, frevo, rumba suingue, merenque, bolero, tango, qualquer um deles sem pecado abaixo do Equador.Estavam livres, por algumas horas.

Livre, liberada, era como Ana se sentia. Mas dizia que não estava mais afim de homem nenhum. Por isso dirigir e voar eram um de seus prazeres prediletos. E, é claro, cuidar e muito bem do filhinho. Ninguém podia comentar nada. Mantinha a posição de “senhora”. Consciente dos preconceitos e do machismo exacerbado, nunca, pelo que se saiba, tinha traído o falecido.Ele,contudo, porém, todavia...

Só Noronha, um jovem cunhado, era caído de amores pela cunhada. Só caído, nada mais, apesar de sua ousadia de adolescente nordestino. Diziam que ele vivia se satisfazendo com as cabras pois era priápico e as mulheres só não conseguiam satisfazer seu apetite sexual. “Você é muito guloso, sai prá lá, seu cabra da peste!”, brincava Ana, já familiarizada com o linguajar local, desfazendo, com todo respeito, qualquer arremedo de assédio sexual.



Os que estavam a fim de um porre mesmo bebiam logo Gin pura ou com Água Tônica ou Guaraná Jesus com doses de Steinhager ou ainda, de preferência, água de coco, que nunca faltava, com doses de uísque, um luxo a mais, mesmo em época de guerra ou por isso mesmo, porque militar quando bebe parte logo prá besteira, isto é antológico, porque a faina diária e a obediência cega aos comandantes chega a levar muitos ao estresse e a deprê. Prá aliviar só mesmo enchendo a cara. A ressaca?! Sal de Frutas ou chá de Boldo ou também uma injeção de Glucoenergan, que ainda não era proibido. E pronto.

A fama de Ana, chegou mesmo até Getúlio Vargas e o presidente americano Roosevelt, naquele 7 de Setembro, durante sua visita a Natal. Quando a comitiva passou de jipe,

Ana, brincando, apontou o veículo – “Olá seu Gegê já andei muito neste jipe.” O presidente brasileiro sorriu, segurando o tradicional charuto. Ao acenar para ela, Roosevelt, mulherengo que era, perguntou, em inglês, quem era aquela pequena.Um oficial cochichou ao ouvido de Getúlio – “É Ana, uma viúva de militar, uma espécie de mascote ou ícone de boa sorte da Base de Natal.”



Depois do cerimonial, no final daquela bela tarde de verão quentíssimo, lá estavam todos no bar da base. E Getúlio, como todo bom gaúcho, num certo momento, quase saiu no tapa com Roosevelt, os dois disputando estar ao lado de Ana. Eflúvios etílicos, digamos assim, sem maiores conseqüências. Coisas de homem querendo encantar as mulheres.

Ficou na história local, a enorme bebedeira e farra que atravessou a madrugada e só terminou no dia seguinte, quando o sol brindou a todos com uma inesquecível aurora meridiana, repleta de cores. Difícil pensar, naquele setembro de 1943, que o mundo estava em guerra. Pelo menos naquela linda parte do Brasil.



A vida de Ana muda agora completamente. Em janeiro de 1944, vindo da casa da famosa modista Odete conhecida na baixa e na alta sociedade local, onde fora apanhar um vestido novo, estava passeando entre as pontes de Recife, tomando um sorvete de cajá, distraída, bateu de frente com um jovem. Depois das desculpas, rapidamente aceitas, vieram as apresentações. Ana, Brennand, Brennand,Ana.



E rolou um papo. Ficou sabendo que o jovem era artista plástico e herdeiro de uma das mais tradicionais famílias do Recife Velho. Puro encantamento, lá ia o jovem, todos os dias e noites atrás de Ana em Olinda, onde ainda vivia na casa de parentes de seu marido Engataram um namoro. E muitos almoços e jantares no Restaurante Buraco de Otilia, um dos melhores do Nordeste.

O casal mudou-se para a Europa, onde viveram felizes durante três anos. O filho de Ana foi levado de volta ao Rio, passando a morar com seus avós maternos, com todo carinho e conforto. A guerra recém terminada deixou cicatrizes espalhadas por várias cidades. Mas Paris sobreviveu a esta catástrofe mundial. E não perdeu seu encanto.

O que perdeu o encanto foi o encontro do casal. Brenno, depois de algumas exposições de suas esculturas, voltou para Recife, um pouco desiludido com sua vida e arte. Na Cidade Eterna – Roma _ Ana ficou morando, já como famosa modelo da Maison Dior, na França. Uma bela modelo latina, admirada por todos na alta costura. Em 1952, ao desfilar no Copacabana Palace, teve oportunidade de rever o filho, agora com 12 anos.

E já vinha acompanhada pelo Conde Klaus,da Baviera, bilionário no ramo de Cristais. Viveram muitos anos, felizes, os três, numa mansão - recanto paradisíaco da natureza, na Mata Atlântica- entre Ubatuba e Paraty, comprado do falecido estilista Clodvis Calado, cuja irmã Dalas, também modelo conhecida nos anos 70/80, mora no Japão até hoje. Ana dedicou- se a órfãos de militares pobres e deficientes acolhendo sua mães, a quem ela chamava carinhosamente de “minhas comadres.” Vó Ana, como ficou conhecida,por sua gentileza e extrema bondade, morreu, sempre estimada por todos,há quinze anos.

E morreu pobre. Ela e Klaus doaram tudo, em vida, para diversas entidades filantrópicas. Costumava dizer a todos e as famílias de caiçaras que conhecera em Trindade : “Me basta apenas este paraíso, aqui estou sempre PERTO DO MAR, PERTO DE DEUS.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2013

Tuc.tuc.tuc...



Meus dias não são mais os mesmos. Agora me faz companhia o barulho grave e ao mesmo tempo saboroso das mangas amarelas e róseas se esparramando no chão de meu quintal. Tuc. Tuc.Tuc. Tuc. Não há barulho mais gostoso de se ouvir e, após a inevitável queda, saboreá-las em suculentos nacos. O doce sabor das mangas aguça o paladar de qualquer mortal. País rico que permite tão gostoso sabor tropical. Imaginar que povos que vivem no gelo, por exemplo, não sentem esse prazer. As mangueiras não estão presente apenas no meu quintal, mas nas ruas, terrenos baldios, estradas e praças. Somos abençoados por tamanha graça da Natureza. E ainda tem o cantarolar dos pássaros que também desfrutam comigo desse som. Tuc.Tuc.Tuc.Tuc.Tuc.Tuc.Tuc. O nosso ramerrão pode ser quebrado com uma simples obsersação de uma manga caindo no chão. Nada mais poético. Acredito! Tuc.