quarta-feira, 15 de agosto de 2012

O brasileiro que levou a Bahia (e o Brasil) para o mundo

No imaginário de brasileiros e estrangeiros, a Bahia é uma terra fascinante — impregnada de calor e vida, repleta de cores e sabores, habitada por uma gente alegre e festiva. Quem forjou essa imagem, usando apenas um dedo de cada mão para datilografar suas histórias, foi Jorge Amado (1912–2001). Se estivesse vivo, o escritor baiano teria completado cem anos na sexta-feira passada.


O Brasil está em meio às comemorações do centenário. Seus romances ganharam novas edições. Em horário nobre, o país vê uma nova adaptação televisiva de Gabriela, Cravo e Canela.

Na semana passada, o Congresso Nacional realizou uma sessão solene em que senadores e deputados federais homenagearam o romancista.

No Senado, a biblioteca abriga a exposição Centenário de Jorge Amado. Nela, o público conhece as primeiras edições de seus livros e algumas das versões publicadas fora do Brasil. Uma cronologia ilustrada com fotos de época leva a uma viagem pelos principais momentos da vida do romancista. A exposição termina na sexta-feira.


Fundação Jorge Amado no Pelourinho


Apenas no Brasil, Jorge Amado vendeu mais de 20 milhões de livros. Provou que best-sellers também podem ter valor literário. Sua obra chegou a mais 55 países, traduzida para idiomas que vão do russo ao catalão, do árabe ao guarani. Gabriela, Clove and Cinnamon, a versão em inglês, chegou a figurar na lista dos mais vendidos do New York Times.

— Ninguém mais que Jorge Amado mereceu, no Brasil, o Prêmio Nobel de Literatura. Que ele nunca tenha ganhado, considero não só uma das maiores injustiças com a literatura brasileira, mas também com o próprio Prêmio Nobel, por não ter entre aqueles que premiou a figura de Jorge Amado, um dos maiores escritores da Humanidade — afirmou o presidente do Senado, José Sarney, na homenagem do Congresso.

Na disputa pelo título de escritor brasileiro mais lido no mundo, Jorge Amado fica atrás apenas de Paulo Coelho.

No quesito adaptação para cinema e televisão, entretanto, nenhum romancista brasileiro conseguiu bater Jorge Amado. A lista de obras adaptadas é extensa. Basta citar Tieta do Agreste, Dona Flor e seus Dois Maridos e, de novo, Gabriela, Cravo e Canela, que foram transformadas tanto em telenovelas quanto em filmes. A mulata Gabriela e o turco Nacib, na versão cinematográfica, 30 anos atrás, foram vividos por Sonia Braga e Marcello Mastroianni.

Em seus romances, Jorge Amado descortinou várias Bahias. Uma diferente da outra, todas -marcantes. A Bahia rural ganhou vida com trabalhadores das fazendas de cacau, coronéis, jagunços e moradores de vilarejos provincianos. A Bahia costeira apareceu com capitães, pescadores e seus saveiros. A Bahia urbana surgiu em meio a pais de santo, boêmios, prostitutas, quituteiras e meninos de rua. Ele gostava de se referir a Salvador como “a cidade da Bahia”.

Em seu discurso na sessão de homenagem, a senadora Lídice da Mata (PSB-BA) afirmou que, graças a Jorge Amado, os próprios baianos passaram a ter uma nova imagem de si mesmos. Nesse ponto, ela colocou o escritor no mesmo patamar do músico ¬Dorival Caymmi (1914–2008):

— Jorge e Caymmi inventaram esta Bahia: terra da felicidade, terra da negritude. Isso contaminou a Bahia de tal forma que nós passamos a ter orgulho da negritude baiana.

Jorge Amado teve uma produção literária extraordinariamente intensa. Entre as décadas de 1930 e 1990, publicou três dezenas de obras. O senador Walter Pinheiro (PT-BA) acredita que seus livros, inclusive os mais antigos, jamais deixaram de ser atuais.

— A memória de Amado esteve sempre relacionada à valorização social e cultural do Brasil. Ele se envolvia nos debates com conceitos como democracia racial e povo. Tudo isso é refletido na tamanha aceitação de sua obra por diferentes públicos.

Nos livros didáticos de literatura brasileira, ele é enquadrado no modernismo — mais precisamente, no modernismo regionalista.

Do grupo, fazem parte a cearense Rachel de Queiroz, o paraibano José Lins do Rego, o alagoano Graciliano Ramos e o gaúcho Érico Veríssimo, que assumiram sem pudor os sotaques locais.

— Jorge Amado é o que se pode chamar de romancista bairrista e, ao mesmo tempo, universal. Ele mostrou que é possível dar asas a personagens do seu dia a dia e igualmente transformá-los em personagens do mundo — disse a senadora Ana Amélia (PP-RS).

Em 1961, a Academia Brasileira de Letras, entidade encarregada de cultivar o português do Brasil e a literatura nacional, finalmente reconheceu o talento literário de Jorge Amado. Ele foi eleito para a cadeira 23 — que tem José de Alencar como patrono e Machado de Assis como primeiro ocupante. Muitos reconhecimentos viriam depois, de prêmios pelo mundo a enredos de escolas de samba.

Tocaia

A vida de Jorge Amado, tão intensa, poderia ser confundida com uma bela obra de ficção.

Ele nasce numa fazenda de cacau em Itabuna, sul da Bahia. Com poucos meses de vida, é empapado pelo sangue de seu pai, alvo de uma tocaia nas próprias terras. O pai sobrevive. Ainda criança, é alfabetizado pela mãe.

Em Salvador, adolescente com extraordinária facilidade para escrever, trabalha em jornais como repórter policial.

Lança seu primeiro romance. Influenciado por Rachel de Queiroz, apaixona-se pelo socialismo e seus ideais de união e justiça — suas convicções ideológicas lhe renderiam muita perseguição. No Rio de Janeiro, forma-se em Direito, mas não chega a trabalhar com as leis. Suas obras começam a ser editadas fora do Brasil.

Casa-se pela primeira vez. É preso pela ditadura de Vargas e seus livros são queimados em praça pública. Exila-se no exterior. Separa-se. Conhece Zélia Gattai e passam a viver juntos. Pelo Partido Comunista Brasileiro (PCB), elege-se deputado federal na Assembleia Constituinte. É dele o histórico projeto que instituiu a liberdade religiosa no Brasil.

— Desde jovem, foi-lhe dado testemunhar a violência desmedida com que o Estado e a Igreja tentavam aniquilar os valores culturais provenientes da África. Havia discriminação religiosa. Pais e mães de santo eram presos, espancados e humilhados, e seus lugares sagrados eram invadidos e depredados — disse o deputado federal Roberto Freire (PPS-SP), que já fez parte do PCB.

Pouco depois, o “partidão” é posto na clandestinidade e Jorge Amado perde o assento na Câmara dos Deputados. Mais uma vez, agora com Zélia, parte para o exílio. Percorre todo o leste europeu.

Desilusão

Quando se inteira das atrocidades cometidas pelo ditador Josef Stálin — um de seus heróis — contra os adversários do comunismo soviético, Jorge Amado vê o chão desabar sob seus pés. Acorda, desiludido, de seu sonho quixotesco e abandona a militância política.

Mais tarde, por uma pequena fortuna, vende para Hollywood os direitos de Gabriela, Cravo e Canela. Com o dinheiro, compra um terreno no bairro do Rio Vermelho, em Salvador, para construir a casa onde moraria até o fim da vida.

As décadas rendem-lhe amigos do quilate de Pablo Neruda, Dorival Caymmi, Diego Rivera, Pablo Picasso, Glauber Rocha, Simone de Beauvoir e Jean-Paul Sartre.

A vida de Jorge Amado chegou ao fim em 6 de agosto de 2001, a cinco dias de completar 89 anos. Suas cinzas foram enterradas ao lado de uma mangueira no jardim da casa do Rio Vermelho.

Ele deixou um romance apenas iniciado. Na homenagem do Congresso, o filho do escritor, João Jorge Amado, subiu à tribuna para resumir essa história inacabada.

O escritor imaginava um coronel casado com uma mulher que enlouquece. Ele acaba se apaixonando por uma moça e tenta se casar com ela, mas o padre se recusa a celebrar a união. O coronel fica sabendo que o rei da Inglaterra, para se casar novamente, mudou a religião do país. Assim, ele importa um pastor e declara a sua cidade protestante. A população, que não ousa desafiar o coronel, converte-se. Concluiu João Jorge:

— Conto tudo isso aos senhores para mostrar como é grande a perda dele, que nos priva de ler essa história que não foi concluída e nunca será. É uma lástima.


Jorge Amado,em1990,na Cidade Baixa, Salvador

terça-feira, 14 de agosto de 2012

" 50 Anos sem nossa Estrela : Marilyn Monroe""

" O Pecado Mora ao Lado"!  SEMPRE..........

" A Vida é uma Janela Poética"!

Juliano Cazarré, 31 anos, ator Global: O Adauto da novela Avenida Brasil, em seu primeiro livro de poesias a ser lançado até o final do ano.
“ De todas as janelas do mundo, nenhuma é mais singela que a janela de um sorriso de uma criança banguela”.  ( Juliano Cazarré).





"A SOPA".


Durante muitos anos os moradores de Rua de São Paulo (Sem Teto) foram os únicos, talvez, a ter acesso àquela sopa altamente nutritiva preparada pelas mãos carinhosas e caridosas da irmã Carolina e sua dedicada equipe de freiras do Convento das Carmelitas. Sopas e caldos, em pequenas tigelas, capazes, como se diz no popular, “de levantar defunto.” Uma refeição, talvez a única do dia para muitos, que criava uma sensação de bem estar e aconchego.


Nem a idade já avançada a impedia de preparar em vários caldeirões, aquela refeição, que, nas noites frias da capital, chegava, como uma espécie de milagre, nos baixios das pontes e viadutos, aos famintos.
Principalmente para aquelas levas de pessoas desgarradas de suas raízes (muitos migrantes nordestinos e de outras regiões em busca de uma vida melhor) e que viviam como andarilhos pelas ruas, avenidas e praças da capital, sem ter ainda abrigos permanentes para morar, numa época em que a cidade comemorava o seu 4º. Centenário, no ano de 1954.
Eram conhecidos como “andantes” e “pedintes”, vivendo da solidariedade de pessoas anônimas. Albergues, os poucos que existiam, viviam lotados de pobres já naquela época.
A tarefa era feita também por fiéis voluntários, católicos ou não, que se tornaram conhecidos pelo discreto, mas sólido e constante, amor ao próximo.
A vocação para uma vida religiosa começou a ser sentida por Carolina ainda quando criança e se acentuou na adolescência. De família alemã, imigrantes da Bavária, seus pais chegaram ao Brasil e, de início, se instalaram no interior de Santa Catarina. A jovem Carolina aprendeu, com sua avó e com sua mãe a preparar caldos e sopas que eram distribuídas entre os integrantes da pequena colônia local. Mas também aprendeu a fazer outras receitas. Doces, bolos, tortas e salgados que conquistaram fama aos poucos. Já naquela época o Livro de Receitas de Dona Benta, também era conhecido em todos os lares e ajudava muito, em todas as cozinhas do Brasil afora.
No Convento, depois das missas e rezas, às 6 horas da tarde, as noviças e as freiras, não viam a hora de saborear a vigorosa sopa da Irmã Carolina, elogiada também pelos padres e coroinhas. Verduras e legumes, macarrão e as carnes, geralmente pedaços de músculo bovino, chegavam ao convento pelos doadores anônimos comerciantes que faziam questão absoluta disso.
A sopa de fubá, com ovos, couve rasgada e carne moída, com pitadas de pimenta do Reino era uma das preferidas de todos. “De se tomar rezando, de joelhos”, comentavam pessoas, não tão carentes assim, que se enfiavam, furtivamente, nas filas, para ter o raro privilégio de tomar um pouco da sopa.
Depois de certo tempo de observação, a equipe da Irmã Carolina, teve de tomar uma drástica providência: selecionar e distribuir senhas, avisando com firmeza que “as sopas são só para os muito carentes, por favor”. Fazia isso, é claro, com um pouco de dor no coração.
O sucesso da providencial distribuição de sopas aos carentes aumentou, no decorrer dos anos, a ponto de alguns chefes de cozinha recorrer ao convento para pegar as receitas e fazer fama em restaurantes chiques. Servidas com nacos de pão italiano. Sopa da Irmã Carolina, aparecia, discretamente, nos cardápios. Chique no “úrtimo”,não?!



O caldo de ervilhas com bacon parecia ter sido feito com mãos de anjos, pois as pessoas exclamavam “É da cozinha do céu, é de Deus”, de tão suave e revigorante que era. A sopa de abobrinha, com cubinhos de queijo e azeite, imaginem!, no frio das noites e madrugadas, tinha o dom de criar uma atmosfera de calor, satisfação e felicidade.Uma noite, uma dama da sociedade, parou, poderosa que era, com seu Cadilac, envolta num enorme casaco de pele, embaixo do Viaduto do Chá. “Quem é a Irmã Carolina?!
Alguns jornalistas da Folha de SP e da TV Excelsior, que estavam fazendo reportagem especial sobre a sopa da Irmã Carolina, comentaram: “Pronto, é agora que vai prendê-la por ser comunista!”Coisa, sem dúvida, que ela não era, naquele ano cruel de 1968, de perseguições,cassações, prisões e exílios políticos. Irmã Carolina, ao ser ordenada, tinha feito, isso sim, votos de pobreza absoluta. Apresentou-se, naturalmente, sem medo algum.
“Sou eu, em que posso serví –la, minha senhora.” Ah! Então é a senhora a famosa freira da sopa que todos estão comentando por aí ! Irmã Carolina tinha uma modéstia inigualável, mas era firme, não tinha medo de nada, nem dos poderosos, assim conhecidos. Pelo contrário todos a respeitavam.
E seus muitos conselhos, falavam diretamente ao coração e a mente das pessoas que, comovidas e consoladas em suas aflições e angústias, começavam a praticar orações e meditações, lembrando que “do pó viemos, ao pó voltaremos” e só subiremos aos céus pela infinita graça de Deus. E, sem sombra de dúvidas as sopas da Irmã Carolina,como uma espécie de milagre, colaboravam em muito nessa possível ascensão.
Resumindo a história, aquela dama rica queria mesmo era conhecer a irmã e provar de sua sopa maravilhosa, que, depois de algumas colheradas, revirava os olhos e exclamava Hum! que bela e deliciosa sopa, parabéns irmã Carolina, nunca provei iguaria tão gostosa! Naturalmente ficou muito amiga de Irmã Carolina. As polpudas doações daquela senhora (em dinheiro e produtos) ajudaram muito, mas a amizade ficou acima de tudo. Com muita sabedoria Irmã Carolina sabia deixar as coisas em seu devido lugar.

A irmã sentiu-se consagrada naquela noite inesquecível, mas não perdeu a modéstia. Só relembrou sua adolescência, num flash da memória, a horta da colônia, onde, enfiando a mão na estimulante terra preta, colhia cenouras, batatas, inhames e outras verduras e legumes e o fogão a lenha da pequena casa onde morava com seus pais e cozinhava as suas sopas, que, ao longo de sua vida de religiosa, distribuía aos pobres e aos não pobres, igualmente, sem distinção de classe social.

Sopas encantadas, vitaminadas, verdadeiras lições de vida e de humildade, para todos que serviam e recebiam naquelas noites geladas, de garoa paulistana, onde parecia que o frio penetrava até nos ossos. Sopas que aqueciam o corpo e a alma.

A Prefeitura de SP adotou a iniciativa e até hoje as sopas da Irmã Carolina são compartilhadas como um inesperado luxo, nas noites frias, nos acolhedores abrigos. Sopas (segredos culinários de família) como a de agrião com azeite de tomate seco, sopa completa de mandioca, de maçã, gengibre e mandioquinha, sopa de abobrinha com farinha de peixe, de macarrão Ave Maria com lingüiça e beterraba e outras dignas dos mais famosos gastrônomos e restaurantes desta Terra de Nosso Senhor.

No céu, Irmã Carolina, com certeza, continua sua obra, distribuindo suas generosas sopas aos anjos da Guarda de todos nós. AMÉM!!!


SOPA COMPLETA DE MANDIOCA.

1 colher de sopa de óleo, uma cebola picada, 250 gramas de músculo em cubos pequenos, meio quilo de mandioca sem casca, cortada em pedaços pequenos, uma cenoura grande em rodelas, 3 tabletes de caldo de carne, 2 xícaras de (chá) de escarola picada ( ou agrião), 2 colheres (de sopa) de cebolinha verde picada.
MODO DE PREPARO

Em uma panela de pressão, aqueça o óleo, refogue a cebola. Junte os pedaços de carne e refogue por 10 minutos. Acrescente a mandioca, a cenoura, dois litros de água quente e os tabletes de caldo. Misture bem, tampe a panela e cozinhe por cerca de 30 minutos após pegar pressão ou até que a carne fique mais macia. Desligue o fogo, espere sair toda a pressão, abra a panela e bata metade da sopa no liquidificador. Volte a sopa batida à panela, junte a escarola (ou agrião), misture com a sopa restante. Aqueça por cerca de 5 minutos ou até ferver. Sirva polvilhada com a cebolinha. Rendimento: 10 porções.



NÃO SE ESQUEÇAM DE AGRADECER A IRMÃ CAROLINA!!!

terça-feira, 26 de junho de 2012

"TRECHOS DE UM DIÁRIO - NEM SEMPRE..."





11/06/2012 – segunda feira


O sol até apareceu. Forte. Mas, por volta das 10 horas, começou a chover e assim foi praticamente dia todo, com pancadas esporádicas e aguaceiro lavando o céu e a terra. Fiz os serviços rotineiros: cuidar dos dois cães, limpar o quintal, a varanda e a casa. Tomei café cedo e almocei lá pelas 3 horas.Fiquei vendo a natureza, sentado na varanda, meditando sobre a minha vida.

Pensei nas pequenas comunidades e cidadezinhas da Serra da Mantiqueira, a “serra que chora”, pela grande quantidade de córregos e ribeirões que desce dela. Um pouco de frio após a chuva. Aos pouco, creio, vou me reconciliando com Deus, que está dentro de nós, pura energia, e em todo lugar. E agradeço, silenciosamente por mais um dia.


12/06/2012 – terça feira

Meio preguiçoso o sol apareceu. Doei 2 pares de tênis e alguns agasalhos para a campanha de Inverno,no Postinho de Saúde do bairro. Dia dos Namorados, muitas compras e pouco afeto nos shoppings, frios templos do consumismo que cada vez mais domina as pessoas.
Na rua, nos ônibus, em qualquer lugar o uso de celulares é cada vez maior, impedindo as pessoas de se comunicarem. Semblantes cotidianos, sem querer, escutamos trechos das conversas das pessoas, Assuntos íntimos ou banais. Pequenos compromissos e dramas da vida.
Pelo trajeto do ônibus urbano, obras, demolições e até esqueletos enferrujados de um carro alegórico do último carnaval abandonado num térreo baldio (um maestro regendo uma pequena orquestra aos pedaços). A poesia flash de uma cidade em crescimento, com levas de gente se mudando para cá, trazendo na bagagem sonhos e histórias de vida. No final da tarde, vi o mais lindo por do sol pós chuvas, com suas cores cambiantes prenunciando a chegada de mais uma noite.Quero ter calma, paciência e decisão. E não temer nada, pois Deus está comigo, comigo sempre. Obrigado por mais um dia.

13/06/2012 – quarta feira
Poemas do Pequeno Oratório de Santa Clara( e São Francisco) me enternecem a alma, De autoria de Cecília Meireles, um punhado de profunda ternura. Fui de SJC a Caçapava, via Eugênio de Melo. Bairros industriais, operários, pequenas capelas e a pequena e antiga estação da localidade, completamente abandonada. E pensar que por esta linha férrea passou muita entre SP e Rio (EFCB) desde meados do século 19. Velhas lembranças familiares me ocorreram durante este pequeno passeio. Um dos meus tios serviu militarmente em Caçapava, lá pelos anos 30.
14/06/2012 – quinta feira
Passei por Guararema a caminho de Mogi e admirei mais uma vez o pequeno recanto de Pau D’Alho, junto ao rio Paraíba, as rochas submersas e suas corredeiras, um lugar de encantadora serenidade bem no centro desta cidadela. De Mogi segui, sem estar programado, até Salesópolis. O motorista do ônibus me orientou e agora sei o caminho. Fiquei impressionado com a imensidão do“cinturão verde”, cultivado por “japoneses”. E as pequenas estradas com nomes de seus proprietários rurais de origem nipônica.
Vi a represa do rio Paraitinga. Um trecho do rio Tietê, o distrito de NS dos Remédios, Biritiba Mirim com muita gente simples do meio rural circulando e vários estudantes indo ou voltando das escolas. Do Banco do Povo trouxe vários folhetos turísticos de Salesópolis, onde ficam as nascentes do rio Tietê e uma pequena e antiga usina hidrelétrica, hoje Museu da Energia.
Este passeio serviu também para me relaxar e tirar da cabeça temores e preocupações desnecessárias.
15/06/2012 – sexta feira
Cedo fui fazer teste ergométrico, o sol apareceu e esquentou bem o dia. Peguei jabuticabas e almocei de marmitex, pois a filha de minha vizinha e seu namorado estão começando n o negócio para ganhar a vida. São bem jovens, tudo dará certo com certeza. A comida caseira estava bem gostosa e eu de saco cheio com fogão. Dei um tempo. Valeu.
De noite fui assistir a abertura e palestra da 9ª. Semana Espírita na Câmara Municipal. Um belo coral de músicas sacras me aliviou a alma e pude dormir bem, com as mensagens de amor, ternura e paz, proferidas por uma psicóloga reconhecida no Brasil e no exterior.
Trouxe leituras para entender um pouco mais da filosofia espírita,com o objetivo de me reencontrar, de me sentir mais próximo de Deus, da fé e da espiritualidade que tento cultivar diariamente. Quero alcançar equilíbrio emocional para resgatar a alegria de viver e a felicidade que Ele nos dá.
E que estou aprendendo a agradecer a todo momento. Nessa empreitada a natureza tem me ajudado muito. Por isso gosto de São Francisco Xavier e outros lugares como Jambeiro, Paraibuna e Monteiro Lobato...

16/06/2012 – sábado
Assisti duas palestras – cedo e a tarde – sobre a espiritualidade dos animais e sobre a comunicação correta com o cineasta, diretor do filme “O filme dos Espíritos” As duas foram bastante esclarecedoras a respeito da doutrina espírita. Me emocionei, juntamente com outras pessoas, que têm verdadeiro amor pelos animais domésticos.
E aprendi mais um pouco sobre esses nossos “irmãos menores”. E de noite fui ao Museu assistir um concerto lírico com o tenor Paulo Abrão Esper e a pianista Maria Rasseti. Encontrei amigos. Foi uma bela noite cultural. A música sempre faz um bem danado ao corpo e a alma. Obrigado.
17/06/2012 – domingo
Levantei – me às 8,30. Um belo e grandioso dia de SOL. fiquei vendo um pouco na TV – a programação do evento Rio + 20 sobre Desenvolvimento Sustentável e o Meio Ambiente. Será que dará bons frutos e mais conscientização do homem no sentido de preservarmos a natureza e garantir a vida no planeta Terra? Fico entre otimista e pessimista sobre esta questão. Vamos ver!
18/06/2012 – segunda feira
Ler e escrever sempre, entre outras atividades prazeirosas, faz bem ao coração e a mente. Por isso quero perseverar nessa disciplina. Que Deus me ajude. Obrigado. As impressões de mais um dia...Mais uma semana que começa.
Hoje é dia da estréia de “Gabriela”, na Globo. Com Juliana Pais e grande elenco. O horário é um pouco tarde, mas é bom rever os personagens consagrados nas comemorações dos 100 anos de nascimento de Jorge Amado, o grande escritor baiano, internacionalmente conhecido por suas obras literárias. A Bahia de todos os santos e dos velhos tempos dos coronéis e retirantes da seca.
19/06/2012 – terça feira
Colhi mais jabuticabas, vi que alguns maracujás estão vingando no pé, meditei e orei, pensando na família e nos amigos. Li jornais e revistas. Deus é Luz. Permanentemente.

20/06/2012 – quarta feira
Como estava previsto começou a chover de madrugada e assim foi o dia todo. “A arte é necessária para que a verdade não nos destrua.” Li a carta de um amigo de muitos anos que mora em João Pessoa, na Paraíba. Uma carta amável, com fotos da praia de Ponta Negra, um lugar lindo, no Nordeste. Revi, motivado, antigas fotos de outros passeios memoráveis. O Brasil é um grande país. Por isso recebe muitos turistas de fora.
Emoção é um estado da mente que se manifesta através de nítidas alterações no corpo. Pó isso temos que aprender a lidar, diariamente,com nossas emoções, para ter mais saúde. Um dos muitos conselhos de auto ajuda – “Nas horas difíceis, visualize-se no meio de um imenso jardim e deixe que as flores perfumem e embelezem sua vida”. Faça isso e verá o resultado positivo.
21/06/2012 – quinta feira
Fatos banais do cotidiano tem sua poesia. A poesia rudimentar de vidas vivendo por viver, sem muitos detalhes, É a luta pela sobrevivência. Trechos de conversas nas ruas dão conta disso. Pequenas obras primas da luta diária de todos, com ou sem afeto, Alegrias ou preocupações, todos tem direito a um lugar ao sol.

ECO – Cantara ao longe Francisco, jogral de DEUS, deslumbrado.Quem se mirara em seus olhos, seguira atrás de seu passo!( Um filho de mercadores pode ser mais que um fidalgo,se DEUS o espera com seu comovido abraço...)Ah! Que celeste Destino, ser pobre e andar a seu lado!Só de perfeita alegria levar repleto o regaço!Beijar leprosos, sem se sentir enojado!Converter homens e bichos!Falar com os anjos do espaço!...(Ah! Quem fora a sombra ao menos, desse jogral deslumbrado!)
CLARA – Voz luminosa da noite, feliz de quem te entendia!(Num palácio mui guardado,levantou-se uma menina:já não pode ser quem era,tão bem guarnida, com seus vestidos bordados,de veludo e musselina;já não quer saber de noivos:outra é a sua vida. Fecha as portas, desce a treva, que com seu nome ilumina.Que são lágrimas?Pelo silêncio caminha...)Um vasto campo deserto,a larga estrada divina!Ah! feliz itinerário!Sobrenatural partida!
VIDA – Do pano mais velho usava. Do pão mais velho comia.Num leito de vidas secas, e de cilícios vestida, em travesseiro de pedra, seu curto sono dormia.Cada vez mais pobre tinha de ser sua vida, entre orações e trabalhos e milagres que fazia, a salvar a humanidade dolorida.Mãos no altar, a acender luzes, pés na pedra fria. Humilde, entre as companheiras; diante do mal destemida, Irmã Clara em seu mosteiro tênue vivia.

(Trechos do Pequeno Oratório)
E viva Cecília Meireles com sua magnífica poesia a nos iluminar o dia a dia! Palavras guardadas no coração como uma lição divina!



quinta-feira, 7 de junho de 2012

A doce canção




Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade - e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura,
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos,
Um arco - íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio mesmo do pranto;-
todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal tranformar em verso,
oxalá Deus não o aumente
para trazer o Universo
de polo a polo contente!

 CECÍLIA MEIRELES - Antologia Poética

O DESTINO DO ETERNAL HOPE



(Histórias do mar sem fim)

Era um velho cargueiro de bandeira panamenha que sempre atracava no porto de São Sebastião, Litoral Norte de SP e aí permanecia por vários dias. Já tinha cruzado os sete mares e hoje, meio enferrujado, rangia no embate das ondas no cais, onde ficava amarrado com aquelas grossas cordas. O comandante a bordo e seus oficiais preferiam passar noites e madrugadas enchendo a cara de cerveja e ouvindo todo tipo de música popular brasileira e americana dos bons tempos, no Lorde Jim, um bar a beira mar, na pequena Vila de São Francisco. Já marujada gostava mesmo era das badernas e das garotas de programa no Boteco do Capitão no lado norte de Ilhabela, bem ao lado do pequeno Museu dos Naufrágios.

Eternal Hope ou Eterna Esperança, era o nome deste cargueiro. Segundo a lenda dos navegantes era uma espécie de “Navio Fantasma”, que já tinha naufragado na Ponta de Piribura, ao bater numa madrugada, durante uma forte tempestade, numa laje submersa. Os caiçaras, que tinham prática de mergulhar em profundidade, retiraram uma preciosa carga de barras de ouro de seu casco e, no meio da selva, ergueram uma cidadela chamada Eldorado, onde praticavam estranhíssimos rituais, nas noites claras de Lua Cheia. Perto de um cemitério onde foram sendo enterrados os afogados que apareciam nas praias, dizem que apareciam alguns ETS(?) Várias fotos do navio mercante estão no Museu do Mar, em São Sebastião e no Museu dos Naufrágios.



A história do Eterna Esperança ( afinal porque tinha esse no me?) é incansavelmente contada pelo estagiário Bruno, no museu, junto com a história do “Príncipe das Astúrias”, navio espanhol que afundou no mesmo local em 1916, o chamado “Titanic Brasileiro”. O Eternal Hope seria mesmo um navio e tripulação fantasmas?! Mistérios que perduram até hoje.Um escritor grego, que há muitos anos mora na ilha, também gosta de contar esta história, acrescentando detalhes como a desilusão de um de seus comandantes que, na juventude teria se apaixonado perdidamente pela famosa pintora mexicana Frida Khalo, antes de ser atropelada por um carro que a deixou paraplégica. No convés da velha embarcação sua alma (penada?), costumava aparecer dedilhando um violão e cantando tristemente velhas canções de amor perdido para sempre nas rotas dos Sete Mares.Jovens e até mesmo idosas prostitutas, passeando pelo cais, em busca de marinheiros, choravam copiosamente, ficando repentinamente melancólicas lembrando capítulos de suas vidas pelos prostíbulos em portos do Oriente e do Ocidente




















sexta-feira, 23 de março de 2012

UMA MÃE DE SANTO CHAMADA DONA DÊ


Dê, de Delícia. Mãe Delicinha. Coisa estranha achavam os parentes! Toda vez que a menina Delícia, nome dado pela mãe, não se sabe muito bem porquê, passava por uma banca de doces de uma baiana conhecida, perto do Mercado Modelo,em Salvador, tinha desmaios e ficava salivando. Alguém tinha de socorrê-la com um pedaço de cocada branca ou preta. Delícia aos poucos voltava a si, como num sonho, depois de ter balbuciado algumas palavras desconexas.

Demorou para as pessoas da família e conhecidos acharem que aquilo “era coisa de Santo” e que a menina, com cinco anos mais ou menos, uma graciosa alemãzinha, de profundos olhos azuis, recém chegada ao Brasil, em l943, tinha que “desenvolver sua mediunidade” num dos muitos terreiros da Bahia. “A menina deve ser prometida de Cosme Damião ou de algum santo ou orixá (Ogum de Beira Mar?) ligado a criança que gosta de guloseimas”, falavam as vizinhas de Dona Marlene Dietrich e Gustave Van Heinreid pais de Delícia.


Assim que chegaram ao Brasil, desembarcando de um navio holandês, no porto de Salvador, fugindo do Nazi Fascismo ( Hitler já dominava a Europa), o casal se encantou com o calor e com a diversidade colorida da nova terra que pretendiam adotar. Com certa dificuldade, por causa da língua portuguesa e dialetos que as pessoas falavam, principalmente os negros e negras, que, sem sombra de dúvida, eram extremamente corteses e sorridentes, acharam um pequeno sobrado na Baixa do Sapateiro, onde passaram a morar. Todos achavam bem diferente aquele casal muito branco e também bem educado.

A dúvida era como eles iam se adaptar ao calor dos Trópicos e às comidas típicas da região? Foi assunto por muitos meses. Por fim, acabaram de acostumando. Havia uma pequena colônia de refugiados alemães perto da casa do escritor Jorge Amado e sua mulher Zélia, no bairro do Rio Vermelho. Ambos caíram de amores pelo casal, principalmente Zélia Gattai, descendente de italianos de São Paulo e que estava receosa do que estava acontecendo na Itália de Mussolini, onde ainda moravam vários de seus parentes.

Jorge Amado integrava o Partido Comunista e não gostava nenhum pouco do ditador Getúlio Vargas, que governava o Brasil, naquela época e que só apoiou os aliados depois que o presidente americano Roosevelt visitou o Brasil e recebeu dele um puxão de orelhas político fazendo-o lembrar que a “América é dos americanos”.

O resto a história conta com mais detalhes. Voltemos ao cotidiano da menina Delícia, que foi crescendo com várias meninas e meninos negros, brancos e mulatos da “Roma Negra”, nome dado a Salvador pelo antropólogo francês Pierre Verger, um dos muitos estrangeiros que adotaram a enorme afetividade brasileira (brasilidade).

Todos, em Salvador, já sabiam dos desmaios (ou incorporação) da menina Delícia toda vez que via uma baiana vendendo doces pelas ruas da cidade. A manifestação de dava com mais intensidade, quando os pais levavam Dê para passear no Pelourinho. Quando saíam de uma das mais antigas igrejas da Cidade Alta e passavam pelo Terreiro de Jesus, a menina, começava a chorar e a sentir-se estranha. “Quero doce, quero doce, mãe, me dá doce!”.


Nem mesmo os doces alemães (bolos, biscoitos, apfelstrudel e tortas) que a mãe fazia em casa satisfaziam a menina que se deliciava mais com os doces da terra. Arroz doce, quindin, cocada, canjica, pé de moleque, pudim de tapioca com baba de moça, doce de caju cristalizado etc. Ela comia com gosto. O casal era luterano e tinha ainda um certo pudor ou receio, em levar Dê a um Candomblé, conforme recomendava já algumas amigas do casal. Principalmente Djanira, uma artesã e pintora popular, que morava perto da Igreja de Nossa Senhora Conceição da Praia e que todos os anos participava da lavagem da Igreja de Nossa Senhora do Bom Fim.


Ela e algumas senhoras da “sociedade” freqüentavam o casal que já falava um pouco português, aprendendo com elas o linguajar do cotidiano, carregado de gírias e misticismo.”Mas me diga minha comadre como é que a senhora foi dar justamente o nome de Delícia para sua filha, me explique isto, Ó xente!” E acrescentou que delícia aqui a gente fala quando come ou acha alguma coisa muito gostosa e que dá grande prazer. Daí a gente fala “Hum que delícia!” Um pouco difícil foi explicar a expressão relativa ao amor, ao sexo, conforme canta aquele cantor popular que está fazendo muito sucesso atualmente “Delícia, delícia, assim você me mata, ai se eu te pego!”.

Mas quando aquelas senhoras nem tanto pudicas de outrora e as negras maliciosas conseguiram, finalmente, explicar para aquela alemã, já com alguns anos no Brasil, foi só gargalhada e frivolités meio lascivos, como se estivessem num cabaré. Só de senhoras e senhores.

Foi numa noite de calor, diante de uma farta mesa de doces e salgados alemães e baianos, com um pouco de vinho do Porto e cerveja (o casal sentia saudades da terra de origem, é inegável). Noite de lua cheia e seresta inesquecível –como aquela de Catulo da Paixão Cearense – “Noite alta, céu risonho, aqui tudo é como um sonho...” Todos se esforçaram para integrá-lo na nova terra que recebe amorosamente, de braços abertos, quem aqui chega, de onde vier, como o Cristo Redentor, no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro.

A menina Delícia já estava com quase nove anos, e embora estudando no tradicional Liceu Bahiano, da elite de Salvador, já estava se misturando até como os “Capitães de Areia,” (meninos de rua ou das praias, que viam nela uma espécie de Vênus platinada mitológica), quando, num ato determinado, próprio da cultura germânica, o casal Marlene Dietrich e Gustav ( está explicado, a mãe dela dera o nome daquela artista de cinema famosa – O Anjo Azul - e a tinha influenciado dar o nome de Delícia para a neta, com certeza, coisas de família,daqui e de lá!) decidiram levar a menina a um terreiro para desvendar o mistério dos seus desmaios.

Toda de branco, a menina e seus pais, acompanhados de um grupo de 10 pessoas, incluindo aí Jorge Amado e Zélia, Djanira, Caribé e também três integrantes da colônia alemã da capital e que não tinham mais preconceitos sobre os ritos afro brasileiros, foi levada ao Terreiro de Mãe Menininha de Gantuá, no bairro da Federação, depois do Dique de Itororó.


Foi só vê-la e Mãe Meninha já disse tudo, do passado, do presente e do futuro de Delícia, conforme sua enorme sabedoria e bem querer. Chorou copiosamente abraçando-a, afagando seus cabelos loiros e admirando seus enormes olhos azuis. A menina não se assustou num um pouco, como se estivesse há muito tempo a procura desta estranha ( para ela ) afetividade religiosa. “Oi, mãe”, disse Delícia, deixando todos muito comovidos, chorando e cantando, todos naquela enorme roda de Orixás e seus filhos e filhas, cheirando a alfazema, filigrana de fraternidade infinita. “Fia, não tenha medo, a gente já estava esperando por você, há muito tempo,” disse Mãe Menininha.

Noite memorável para o sincretismo religioso da Bahia. Noite de rezas, cantos e cantigas. Seguindo o Candomblé, a partir daquela época, Dê se tornou, aos poucos, o braço direito daquela Mãe de Santo, que, muitos anos depois, pouco antes de morrer, delegou a ela seus poderes mágicos e a nomeou Mãe Dê Delícinha de Gantuá, de cabelos de ouro e olhos de safira, a primeira mãe de santo alemã em terras brasileiras.Guardiã de todas as doçuras pelo mundo afora, muito venerada e procurada até hoje, com quase 80 anos.

UM CONTO DE AMOR NA “INGLESA”


Diziam que os túneis eram mal assombrados. Fantasmas de antigos ferroviários mortos em acidentes durante a construção da Ferrovia Santos – Jundiaí, também conhecida como “A Inglesa”, costumavam aparecer em determinados dias, assustando as pessoas que moravam na Estação de Paranapiacaba, no alto da serra, em Cubatão, a caminho do mar.
Mas era neles que Mary e Jefferson, crianças ainda, costumavam se encontrar, depois das brincadeiras: jogo de bola, empinar pipas ou ainda balançando nas árvores da Mata Atlântica exuberante. Nas cachoeiras do trecho tomavam um banho refrescante e quase ao anoitecer pegavam “carona”, para voltar para casa, em algum trem subindo para São Paulo, com passageiros (muitos imigrantes japoneses, italianos,espanhóis, sírios libaneses, etc). Na descida, gostavam de encurtar o passeio (sempre uma aventura cotidiana depois da escola),subindo nos trens de carga, carregados com sacas de café para embarque no porto.

Mary era filha de um maquinista inglês casado com uma caiçara de Bertioga e Jefferson, filho de um inglês, chefe da Estação e uma jovem de Santa Bárbara D’Oeste, cujos avós eram norte – americanos (ianques),descontentes com a derrota dos sulistas,na Guerra de Secessão e que tinham entrado no Brasil pelo litoral. O forte encantamento das praias não impediu que eles subissem para São Paulo, a capital em grande expansão. Parentes de Mary e Jefferson até hoje moram no bairro de Santo Amaro.
A rígida educação de Jefferson não impediu que, já no começo da adolescência, namorasse Mary, cuja mãe por ser nativa, não era vista com “bons olhos”. Era o preconceito disfarçado, na época (entre 1910 e 1925) entre os moradores daquela vila. O pai dela sempre repudiava qualquer manifestação desse tipo, eterno namorado que era da esposa brasileira, que sempre tratava com grande respeito. Viviam apaixonados um romance que começou ainda aos 18 anos quando ele veio trabalhar na ferrovia, vivendo a primeira grande aventura de sua vida, ao atravessar o Atlântico, num navio cargueiro.

A amizade vivida entre Mary e Jefferson se tornou paixão, aos 13 anos, mais ou menos, quando a troca de olhares e o aperto de mãos se tornaram mais intensos. Ficavam juntos o tempo todo, separando-se aos poucos dos outros adolescentes que costumavam se reunir na pracinha da vila, sempre ao entardecer, para admirar o por do sol. E trocar juras de amor e furtivos beijos.
Quando terminaram o ginásio em Paranapiacaba tiveram que vir para São Paulo,onde haviam o Colégio Mackenzie e o Anglo Americano para filhos de ingleses, pois ambos pretendiam continuar os estudos.Ambos moravam em pensionatos diferentes, mas se encontravam sempre aos fins de semana, para namorar, indo ao Cine Metro, na avenida São João. Pelo menos uma vez por mês pegavam o trem na Estação da Luz e iam ver os pais, pois a saudade batia forte.


Quase na fase adulta, já perto dos 23 anos e faltando pouco para a formatura. Ela, enfermeira padrão e ele jovem engenheiro mecânico, decidiram ficar juntos para sempre, pois era grande o amor entre eles. Foi depois de uma matiné no Cine Metro, num sábado, de Agosto, que eles decidiram que já era a hora de se conhecerem mais.Tinham acabado de assistir, o filme “A Deusa do Canal” com Jean Harlow e Ramón Navarro. Num discreto hotelzinho do Campos Elísios, de propriedade de uma vivida senhora francesa, conhecido por receber estudantes apaixonados, selaram a união para sempre. Mary e Jefferson se entregaram um ao outro, ambos virgens na questão de sexo. Foi uma noite de sonhos para ambos, que só despertaram daquela magia por volta do meio dia de um domingo cálido de inverno. E com muita fome.


Pareciam de novo, aquelas crianças que brincavam dentro dos túneis supostamente mal assombrados naquela ferrovia “Inglesa”, no alto da serra de Cubatão.
“Não importa o que acontecer, meu amor, vou te amar para sempre”, frisou Jefferson. Mary confirmou também sua intenção selando o compromisso com um longo e doce beijo, ambos abraçados no quarto. O hilário foi que durante “a batalha do amor”, lá pelas tantas da madrugada, ambos caíram da cama e foram parar no chão, entre risadas.

De manhã, sonolentos ainda, na mais perfeita paz que dois seres humanos enamorados podem curtir, da janela aberta viram o pico do Jaraguá ao longe e ouviram o longo apito de mais um trem em direção ao interior paulista, saindo da Estação da Luz, com certeza o destino certo ou incerto de muitos outros casais apaixonados começando uma vida nova.