quinta-feira, 7 de junho de 2012

A doce canção




Pus-me a cantar minha pena
com uma palavra tão doce,
de maneira tão serena,
que até Deus pensou que fosse
felicidade - e não pena.

Anjos de lira dourada
debruçaram-se da altura,
Não houve, no chão, criatura
de que eu não fosse invejada,
pela minha voz tão pura.

Acordei a quem dormia,
fiz suspirarem defuntos,
Um arco - íris de alegria
da minha boca se erguia
pondo o sonho e a vida juntos.

O mistério do meu canto
Deus não soube, tu não viste.
Prodígio mesmo do pranto;-
todos perdidos de encanto,
só eu morrendo de triste!

Por assim tão docemente
meu mal tranformar em verso,
oxalá Deus não o aumente
para trazer o Universo
de polo a polo contente!

 CECÍLIA MEIRELES - Antologia Poética

O DESTINO DO ETERNAL HOPE



(Histórias do mar sem fim)

Era um velho cargueiro de bandeira panamenha que sempre atracava no porto de São Sebastião, Litoral Norte de SP e aí permanecia por vários dias. Já tinha cruzado os sete mares e hoje, meio enferrujado, rangia no embate das ondas no cais, onde ficava amarrado com aquelas grossas cordas. O comandante a bordo e seus oficiais preferiam passar noites e madrugadas enchendo a cara de cerveja e ouvindo todo tipo de música popular brasileira e americana dos bons tempos, no Lorde Jim, um bar a beira mar, na pequena Vila de São Francisco. Já marujada gostava mesmo era das badernas e das garotas de programa no Boteco do Capitão no lado norte de Ilhabela, bem ao lado do pequeno Museu dos Naufrágios.

Eternal Hope ou Eterna Esperança, era o nome deste cargueiro. Segundo a lenda dos navegantes era uma espécie de “Navio Fantasma”, que já tinha naufragado na Ponta de Piribura, ao bater numa madrugada, durante uma forte tempestade, numa laje submersa. Os caiçaras, que tinham prática de mergulhar em profundidade, retiraram uma preciosa carga de barras de ouro de seu casco e, no meio da selva, ergueram uma cidadela chamada Eldorado, onde praticavam estranhíssimos rituais, nas noites claras de Lua Cheia. Perto de um cemitério onde foram sendo enterrados os afogados que apareciam nas praias, dizem que apareciam alguns ETS(?) Várias fotos do navio mercante estão no Museu do Mar, em São Sebastião e no Museu dos Naufrágios.



A história do Eterna Esperança ( afinal porque tinha esse no me?) é incansavelmente contada pelo estagiário Bruno, no museu, junto com a história do “Príncipe das Astúrias”, navio espanhol que afundou no mesmo local em 1916, o chamado “Titanic Brasileiro”. O Eternal Hope seria mesmo um navio e tripulação fantasmas?! Mistérios que perduram até hoje.Um escritor grego, que há muitos anos mora na ilha, também gosta de contar esta história, acrescentando detalhes como a desilusão de um de seus comandantes que, na juventude teria se apaixonado perdidamente pela famosa pintora mexicana Frida Khalo, antes de ser atropelada por um carro que a deixou paraplégica. No convés da velha embarcação sua alma (penada?), costumava aparecer dedilhando um violão e cantando tristemente velhas canções de amor perdido para sempre nas rotas dos Sete Mares.Jovens e até mesmo idosas prostitutas, passeando pelo cais, em busca de marinheiros, choravam copiosamente, ficando repentinamente melancólicas lembrando capítulos de suas vidas pelos prostíbulos em portos do Oriente e do Ocidente




















sexta-feira, 23 de março de 2012

UMA MÃE DE SANTO CHAMADA DONA DÊ


Dê, de Delícia. Mãe Delicinha. Coisa estranha achavam os parentes! Toda vez que a menina Delícia, nome dado pela mãe, não se sabe muito bem porquê, passava por uma banca de doces de uma baiana conhecida, perto do Mercado Modelo,em Salvador, tinha desmaios e ficava salivando. Alguém tinha de socorrê-la com um pedaço de cocada branca ou preta. Delícia aos poucos voltava a si, como num sonho, depois de ter balbuciado algumas palavras desconexas.

Demorou para as pessoas da família e conhecidos acharem que aquilo “era coisa de Santo” e que a menina, com cinco anos mais ou menos, uma graciosa alemãzinha, de profundos olhos azuis, recém chegada ao Brasil, em l943, tinha que “desenvolver sua mediunidade” num dos muitos terreiros da Bahia. “A menina deve ser prometida de Cosme Damião ou de algum santo ou orixá (Ogum de Beira Mar?) ligado a criança que gosta de guloseimas”, falavam as vizinhas de Dona Marlene Dietrich e Gustave Van Heinreid pais de Delícia.


Assim que chegaram ao Brasil, desembarcando de um navio holandês, no porto de Salvador, fugindo do Nazi Fascismo ( Hitler já dominava a Europa), o casal se encantou com o calor e com a diversidade colorida da nova terra que pretendiam adotar. Com certa dificuldade, por causa da língua portuguesa e dialetos que as pessoas falavam, principalmente os negros e negras, que, sem sombra de dúvida, eram extremamente corteses e sorridentes, acharam um pequeno sobrado na Baixa do Sapateiro, onde passaram a morar. Todos achavam bem diferente aquele casal muito branco e também bem educado.

A dúvida era como eles iam se adaptar ao calor dos Trópicos e às comidas típicas da região? Foi assunto por muitos meses. Por fim, acabaram de acostumando. Havia uma pequena colônia de refugiados alemães perto da casa do escritor Jorge Amado e sua mulher Zélia, no bairro do Rio Vermelho. Ambos caíram de amores pelo casal, principalmente Zélia Gattai, descendente de italianos de São Paulo e que estava receosa do que estava acontecendo na Itália de Mussolini, onde ainda moravam vários de seus parentes.

Jorge Amado integrava o Partido Comunista e não gostava nenhum pouco do ditador Getúlio Vargas, que governava o Brasil, naquela época e que só apoiou os aliados depois que o presidente americano Roosevelt visitou o Brasil e recebeu dele um puxão de orelhas político fazendo-o lembrar que a “América é dos americanos”.

O resto a história conta com mais detalhes. Voltemos ao cotidiano da menina Delícia, que foi crescendo com várias meninas e meninos negros, brancos e mulatos da “Roma Negra”, nome dado a Salvador pelo antropólogo francês Pierre Verger, um dos muitos estrangeiros que adotaram a enorme afetividade brasileira (brasilidade).

Todos, em Salvador, já sabiam dos desmaios (ou incorporação) da menina Delícia toda vez que via uma baiana vendendo doces pelas ruas da cidade. A manifestação de dava com mais intensidade, quando os pais levavam Dê para passear no Pelourinho. Quando saíam de uma das mais antigas igrejas da Cidade Alta e passavam pelo Terreiro de Jesus, a menina, começava a chorar e a sentir-se estranha. “Quero doce, quero doce, mãe, me dá doce!”.


Nem mesmo os doces alemães (bolos, biscoitos, apfelstrudel e tortas) que a mãe fazia em casa satisfaziam a menina que se deliciava mais com os doces da terra. Arroz doce, quindin, cocada, canjica, pé de moleque, pudim de tapioca com baba de moça, doce de caju cristalizado etc. Ela comia com gosto. O casal era luterano e tinha ainda um certo pudor ou receio, em levar Dê a um Candomblé, conforme recomendava já algumas amigas do casal. Principalmente Djanira, uma artesã e pintora popular, que morava perto da Igreja de Nossa Senhora Conceição da Praia e que todos os anos participava da lavagem da Igreja de Nossa Senhora do Bom Fim.


Ela e algumas senhoras da “sociedade” freqüentavam o casal que já falava um pouco português, aprendendo com elas o linguajar do cotidiano, carregado de gírias e misticismo.”Mas me diga minha comadre como é que a senhora foi dar justamente o nome de Delícia para sua filha, me explique isto, Ó xente!” E acrescentou que delícia aqui a gente fala quando come ou acha alguma coisa muito gostosa e que dá grande prazer. Daí a gente fala “Hum que delícia!” Um pouco difícil foi explicar a expressão relativa ao amor, ao sexo, conforme canta aquele cantor popular que está fazendo muito sucesso atualmente “Delícia, delícia, assim você me mata, ai se eu te pego!”.

Mas quando aquelas senhoras nem tanto pudicas de outrora e as negras maliciosas conseguiram, finalmente, explicar para aquela alemã, já com alguns anos no Brasil, foi só gargalhada e frivolités meio lascivos, como se estivessem num cabaré. Só de senhoras e senhores.

Foi numa noite de calor, diante de uma farta mesa de doces e salgados alemães e baianos, com um pouco de vinho do Porto e cerveja (o casal sentia saudades da terra de origem, é inegável). Noite de lua cheia e seresta inesquecível –como aquela de Catulo da Paixão Cearense – “Noite alta, céu risonho, aqui tudo é como um sonho...” Todos se esforçaram para integrá-lo na nova terra que recebe amorosamente, de braços abertos, quem aqui chega, de onde vier, como o Cristo Redentor, no alto do Corcovado, no Rio de Janeiro.

A menina Delícia já estava com quase nove anos, e embora estudando no tradicional Liceu Bahiano, da elite de Salvador, já estava se misturando até como os “Capitães de Areia,” (meninos de rua ou das praias, que viam nela uma espécie de Vênus platinada mitológica), quando, num ato determinado, próprio da cultura germânica, o casal Marlene Dietrich e Gustav ( está explicado, a mãe dela dera o nome daquela artista de cinema famosa – O Anjo Azul - e a tinha influenciado dar o nome de Delícia para a neta, com certeza, coisas de família,daqui e de lá!) decidiram levar a menina a um terreiro para desvendar o mistério dos seus desmaios.

Toda de branco, a menina e seus pais, acompanhados de um grupo de 10 pessoas, incluindo aí Jorge Amado e Zélia, Djanira, Caribé e também três integrantes da colônia alemã da capital e que não tinham mais preconceitos sobre os ritos afro brasileiros, foi levada ao Terreiro de Mãe Menininha de Gantuá, no bairro da Federação, depois do Dique de Itororó.


Foi só vê-la e Mãe Meninha já disse tudo, do passado, do presente e do futuro de Delícia, conforme sua enorme sabedoria e bem querer. Chorou copiosamente abraçando-a, afagando seus cabelos loiros e admirando seus enormes olhos azuis. A menina não se assustou num um pouco, como se estivesse há muito tempo a procura desta estranha ( para ela ) afetividade religiosa. “Oi, mãe”, disse Delícia, deixando todos muito comovidos, chorando e cantando, todos naquela enorme roda de Orixás e seus filhos e filhas, cheirando a alfazema, filigrana de fraternidade infinita. “Fia, não tenha medo, a gente já estava esperando por você, há muito tempo,” disse Mãe Menininha.

Noite memorável para o sincretismo religioso da Bahia. Noite de rezas, cantos e cantigas. Seguindo o Candomblé, a partir daquela época, Dê se tornou, aos poucos, o braço direito daquela Mãe de Santo, que, muitos anos depois, pouco antes de morrer, delegou a ela seus poderes mágicos e a nomeou Mãe Dê Delícinha de Gantuá, de cabelos de ouro e olhos de safira, a primeira mãe de santo alemã em terras brasileiras.Guardiã de todas as doçuras pelo mundo afora, muito venerada e procurada até hoje, com quase 80 anos.

UM CONTO DE AMOR NA “INGLESA”


Diziam que os túneis eram mal assombrados. Fantasmas de antigos ferroviários mortos em acidentes durante a construção da Ferrovia Santos – Jundiaí, também conhecida como “A Inglesa”, costumavam aparecer em determinados dias, assustando as pessoas que moravam na Estação de Paranapiacaba, no alto da serra, em Cubatão, a caminho do mar.
Mas era neles que Mary e Jefferson, crianças ainda, costumavam se encontrar, depois das brincadeiras: jogo de bola, empinar pipas ou ainda balançando nas árvores da Mata Atlântica exuberante. Nas cachoeiras do trecho tomavam um banho refrescante e quase ao anoitecer pegavam “carona”, para voltar para casa, em algum trem subindo para São Paulo, com passageiros (muitos imigrantes japoneses, italianos,espanhóis, sírios libaneses, etc). Na descida, gostavam de encurtar o passeio (sempre uma aventura cotidiana depois da escola),subindo nos trens de carga, carregados com sacas de café para embarque no porto.

Mary era filha de um maquinista inglês casado com uma caiçara de Bertioga e Jefferson, filho de um inglês, chefe da Estação e uma jovem de Santa Bárbara D’Oeste, cujos avós eram norte – americanos (ianques),descontentes com a derrota dos sulistas,na Guerra de Secessão e que tinham entrado no Brasil pelo litoral. O forte encantamento das praias não impediu que eles subissem para São Paulo, a capital em grande expansão. Parentes de Mary e Jefferson até hoje moram no bairro de Santo Amaro.
A rígida educação de Jefferson não impediu que, já no começo da adolescência, namorasse Mary, cuja mãe por ser nativa, não era vista com “bons olhos”. Era o preconceito disfarçado, na época (entre 1910 e 1925) entre os moradores daquela vila. O pai dela sempre repudiava qualquer manifestação desse tipo, eterno namorado que era da esposa brasileira, que sempre tratava com grande respeito. Viviam apaixonados um romance que começou ainda aos 18 anos quando ele veio trabalhar na ferrovia, vivendo a primeira grande aventura de sua vida, ao atravessar o Atlântico, num navio cargueiro.

A amizade vivida entre Mary e Jefferson se tornou paixão, aos 13 anos, mais ou menos, quando a troca de olhares e o aperto de mãos se tornaram mais intensos. Ficavam juntos o tempo todo, separando-se aos poucos dos outros adolescentes que costumavam se reunir na pracinha da vila, sempre ao entardecer, para admirar o por do sol. E trocar juras de amor e furtivos beijos.
Quando terminaram o ginásio em Paranapiacaba tiveram que vir para São Paulo,onde haviam o Colégio Mackenzie e o Anglo Americano para filhos de ingleses, pois ambos pretendiam continuar os estudos.Ambos moravam em pensionatos diferentes, mas se encontravam sempre aos fins de semana, para namorar, indo ao Cine Metro, na avenida São João. Pelo menos uma vez por mês pegavam o trem na Estação da Luz e iam ver os pais, pois a saudade batia forte.


Quase na fase adulta, já perto dos 23 anos e faltando pouco para a formatura. Ela, enfermeira padrão e ele jovem engenheiro mecânico, decidiram ficar juntos para sempre, pois era grande o amor entre eles. Foi depois de uma matiné no Cine Metro, num sábado, de Agosto, que eles decidiram que já era a hora de se conhecerem mais.Tinham acabado de assistir, o filme “A Deusa do Canal” com Jean Harlow e Ramón Navarro. Num discreto hotelzinho do Campos Elísios, de propriedade de uma vivida senhora francesa, conhecido por receber estudantes apaixonados, selaram a união para sempre. Mary e Jefferson se entregaram um ao outro, ambos virgens na questão de sexo. Foi uma noite de sonhos para ambos, que só despertaram daquela magia por volta do meio dia de um domingo cálido de inverno. E com muita fome.


Pareciam de novo, aquelas crianças que brincavam dentro dos túneis supostamente mal assombrados naquela ferrovia “Inglesa”, no alto da serra de Cubatão.
“Não importa o que acontecer, meu amor, vou te amar para sempre”, frisou Jefferson. Mary confirmou também sua intenção selando o compromisso com um longo e doce beijo, ambos abraçados no quarto. O hilário foi que durante “a batalha do amor”, lá pelas tantas da madrugada, ambos caíram da cama e foram parar no chão, entre risadas.

De manhã, sonolentos ainda, na mais perfeita paz que dois seres humanos enamorados podem curtir, da janela aberta viram o pico do Jaraguá ao longe e ouviram o longo apito de mais um trem em direção ao interior paulista, saindo da Estação da Luz, com certeza o destino certo ou incerto de muitos outros casais apaixonados começando uma vida nova.

quarta-feira, 15 de fevereiro de 2012

A NATUREZA TE CONTEMPLA COM UM GRANDIOSO ESPETÁCULO PELAS MANHÃS E ELA NEM TE COBRA POR ISSO...

Carnaval 2012



Nessa Folia: Pule, Cante, Dance, Sorria, Alegrias.... sem violência - nós também pedimos Paz!

Reflexão

“PORQUE HÁ O DIREITO AO GRITO, ENTÃO EU GRITO”

"O QUE É VERDADEIRAMENTE IMORAL É TER DESISTIDO DE VOCÊ MESMO”

"LIBERDADE É POUCO. O QUE EU DESEJO AINDA NÃO TEM NOME”

..................(Clarice Lispector).........................
SE AQUELA BRASTEMP FALASSE!...

(Com saudades de Dercy Gonçalves. E bota saudades nisso!)



Eram três irmãs viúvas fogosas, na faixa dos 45 a 60 anos. Adalgisa(veterinária, quase foi miss Brasil em 1936), Ruthnéia ( bem aposentada pela CEF) e Lindonice (enfermeira também aposentada,mas da Aeronáutica). Nascidas no interior de Minas Gerais acabaram morando no Rio de Janeiro no final dos anos 40. Ficaram casadas mais ou menos uns 25 anos, despachando seus maridos desta para melhor, tendo já os filhos e filhas criados e os netos e netas também.

Por força da criação familiar nunca foram dadas a dramas muito sentimentais. A avó e a mãe delas eram “secas, não se abrindo muito diante de pessoas desconhecidas”. E quem sabe bem lá prá trás, algumas ancestrais que viveram entre o Sudeste e o Nordeste, no vai e vem das vidas passadas no “trem bão” e “paus de arara” deste país quente e colorido, também tivessem sido assim. “Tudo são águas passadas... morreu, morreu, fazer o que, minha filha!” Mais ou menos assim, como marca registrada. Não suportavam as falsas carolas, “destas que ficam enfiadas dentro das igrejas, mas na verdade estão atrás de fofocas, de disse me disse”, que também é tradição neste vasto país de Deus e o Diabo na terra do Sol”. Vai ver!

Choraram sim as perdas e danos da vida, mas como todos sabem ela continua sempre e esta é a principal lição que podemos tirar, desta estrada, às vezes reta, às vezes tortuosa, com momentos de extrema felicidade e outros, tristes e cheios de incertezas. Só não eram “viúvas alegres”, pois eram mais ou menos recatadas. Irônicas sim, não perdiam oportunidade para fazer comentários sobre a vida alheia, mas nada que ofendesse os princípios da boa vizinhança e da moral vigente. Só uma vez, Adalgisa pisou na bola com uma das filhas, numa festa de aniversário de 18 anos, quando um dos namorados se esforçava DEMAIS para lembrar quem eram seus pais,figuras conhecidas da alta sociedade do Rio, donos de uma emissora de Rádio e TV famosas. A filha quis morrer naquele dia, com a resposta dada ao rapaz pela mãe. “Não precisa se esforçar tanto não, meu filho, pois aqui até o presidente da República passa despercebido!” MAMÃAAEEEEE, só conseguiu dizer a filha, acabando de perder mais um partidão, pensando em namoro sério e casamento, essas coisas.”

As três viúvas gostavam também de algumas piadas meio que sórdidas para levarem a vida “numa boa”, conforme costumavam dizer em seus chavões hilários. Entre eles, o famoso “vai que é mole” ou “vê se não enfia o pé na Jaca, querida!”Costumavam lembrar as comédias de Dercy Gonçalves que tinham assistido no auge da Praça Tiradentes. Não riam muito na hora, pois estavam acompanhadas de seus distintos maridos, mas depois, entre quatro paredes, riam de se mixar. Os maridos, estes sim, podiam se escangalhar de rir nas poltronas do teatro Rival ou na Cinelândia, quando passava alguma chanchada da desbocada atriz, recentemente lembrada numa mini-série de TV baseada na biografia “Dercy de Cabo a Rabo”, da escritora Maria Adelaide Amaral.


Viúvas, Adalgisa,que morava num bom apartamento em Copacabana,herdado do marido um novo rico da época, Ruthnéia,que morava no Meyer e Lindonice, na Tijuca, marcavam encontro um sábado por mês à tarde para “bater perna no centro do Rio ou colocar as novidades em dia”, tranqüilas, passeando na Galeria Central e depois tomar um chope no Amarelinho ou um chá na Confeitaria Colombo, conforme o humor delas.

Era um Rio no ano de 1960, deixando de ser Capital Federal, de mudança para Brasília, no governo JK, o “presidente Bossa Nova”. Portanto uma “Cidade Maravilhosa” que mantinha ainda um pouco do conhecido charme carioca, embora muitas vezes, de dia faltasse água e de noite faltasse luz. “Imaginem vocês JK querendo governar 50 anos em 5, ele, tá é doido, esse homem!, não consegue botar ordem nem na casa dele”, comentavam.

Como tinham curso superior, entendiam e acompanhavam a política da época. E proferiam palavras abjetas se referindo aos políticos e suas ações corruptas no calor de uma discussão, no calor do verão carioca entre um chop e outro, no caso ( da Brahma é claro). Mas se fosse na Colombo mediam as palavras e só falavam de moda e dos “bonitões da tela”, de um ou outro filme da Atlântida ou da Metro em cartaz. Tomavam seu chá com discrição e elegância (propositalmente um pouco afetadas é claro!) com pitadas de ironia vendo tal e tal fulana ou fulano entrar.
Momentos inesquecíveis para elas que pareciam ter voltado à adolescência que tinha ficado longe, longe, lá por Conselheiro Lafayete, num dos muitos caminhos que levam a BH. E assim as horas iam passando até chegar o momento do mais lindo crepúsculo do mundo, na Praça Paris, hora de voltar para casa, de (ônibus, de táxi ou num trem da Central )

Relembrando tudo isso, já ia me esquecendo de falar da velha Brastemp (comprada a prazo nas Casas Garçon ). Enlouquecidas pelo calor de 40º, daquele ano, elas tinham ido à praia no Leblon e encontraram algumas amigas balzaqueanas como elas e que fazia tempo que não se viam. Imagine vocês o longo papo que tiveram recordando. Naturalmente uma olhando as pelancas e rugas da outra, mas sem comentários. Esqueceram até da hora.

E como uma das amigas era de Juiz de Fora, recordou o pai que era prefeito e Dercy Gonçalves estava na cidade numa de suas comédias pelo Brasil a fora. “Imaginem vocês, que um dos refletores resolveu cair bem no meio da cena. Dercy lascou um palavrão ( PQP é claro!), “Tem gente querendo me matar aqui, não é possível!” O teatro quase veio abaixo de tantas gargalhadas. “Meu pai prefeito, não sabia como se desculpar perante a atriz que disse depois” “Ora bolas deixa prá lá, to viva num to!

As duas irmãs viúvas, meio que empolgadas pelo reencontro ou pelos chops, desta vez no Bar Garota de Ipanema, passaram a noite no apartamento de Adalgisa, em Copacabana, que era mais perto. “Você não vai querer que eu pegue trem da Central prá voltar pro Meyer, agora, vai? Vamos que um tarado resolva me atacar, já pensou!”, disse Ruthnéia. “E nem eu, nem pensar de voltar prá Tijuca, na escuridão da noite, Vocês sabem, eu sou menina moça mineira, uai!”, afirmou Lindonice. (Risos, muitos, mas muitos risos ecoavam pelo poço do elevador naquele prédio na rua Barata Ribeiro, até chegar ao 10º. andar. Esbaforidas ligaram todos os ventiladores, abriram a porta da geladeira, sentaram na frente dela, para receber aquela brisa geladinha, geladinha.”Ah que alívio!”


E diziam em coro, “entra abençoadinha, entra,” levantando as saias. Mortas de calor, mas satisfeitíssimas da vida. “Homem, prá que homem, só serve prá encher o saco!” E riam a mais não poder.Até a bicha, artista plástico do 11º. andar veio ver o que estava acontecendo com suas amigas. Nossa!... Bateu na porta do apê. E foi recebido pelas três animadíssimas viúvas. Daí foi mais e mais risadas ainda. Pode!

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Reflexão


"Você nasceu no lar que precisava nascer, vestiu o corpo físico que merecia, mo...ra onde melhor Deus te proporcionou, de acordo com o teu adiantamento.
Você possui os recursos financeiros coerentes com tuas necessidades... nem mais, nem menos, mas o justo para as tuas lutas terrenas.
Seu ambiente de trabalho é o que você elegeu espontaneamente para a sua realização.
Teus parentes e amigos são as almas que você mesmo atraiu, com tua própria afinidade.
Portanto, teu destino está constantemente sob teu controle.
Você escolhe, recolhe, elege, atrai, busca, expulsa, modifica tudo aquilo que te rodeia a existência.
Teus pensamentos e vontades são a chave de teus atos e atitudes. São as fontes de atração e repulsão na jornada da tua vivência.
Não reclame, nem se faça de vítima. Antes de tudo, analisa e observa.
A mudança está em tuas mãos.
Reprograma tua meta, busca o bem e você viverá melhor.
Embora ninguém possa voltar atrás e fazer um novo começo, qualquer um pode começar agora e fazer um novo fim."

(Chico Xavier)

ROGER, UM ANJINHO DE PROCISSÃO- UMA HISTÓRIA.

Quando o conheci ele já era bem gordinho e qualquer esforço o deixava extenuado. Seu rosto bochechudo ficava ‘ROSINHA” e suado. Já era “nervosinho” e qualquer coisa o irritava profundamente. Tentava se misturar com os outros meninos da rua. Todos magrinhos. Mas, só com muita dificuldade conseguia manter um relacionamento mais ou menos estável, na base da camaradagem, do troca troca de guloseimas, brinquedos e joguinhos que era tradição entre as crianças fazendo a delícia de todos eles. Jogar bola, nem pensar.Foi acolhido por uma família simples, sem grandes posses e todos sabiam de sua origem.


Foi feito uma espécie de acordo, para que ele nunca soubesse de nada, sobre a condição em que veio ao mundo e nem cobrasse depois sobre sua história, a vida de seus pais verdadeiros que, a bem da verdade, eram sim, criaturas de Deus, sem culpa e nem tantos pecados, que não tinham dado certo na vida. É o mínimo que se pode dizer. Viviam todos naquela pequena cidade que recebeu o título de Patrimônio da Humanidade por sua representatividade histórica e religiosa no país.

O destino o encaminhou, como acontece com todos, para que ele sobrevivesse com dignidade. Com Roger, “anjinho de procissão”, no entanto, a vida foi de luta e muito esforço. Gordinho nasceu, gordo ficou.


Nas procissões daquela paróquia, era o “anjinho” que mais se destacava, no meio dos outros. Túnica azul claro e asinhas brancas, com as mãozinhas unidas em prece, todos diziam que ele já estava preparado para subir aos céus e ter uma conversinha singela com Deus Nosso Senhor que sabe das alegrias e amarguras de cada um de seus diletos filhos. Eram asinhas especialmente compradas por sua mãe numa daquelas tradicionais romarias ao Santuário de Aparecida.

Foram compradas, numa loja próxima da Basílica, num dia 12 de Outubro, muito movimentado, por ser o Dia da Padroeira do Brasil, veneradíssima pelos católicos praticantes, lá pelos seus cinco anos. O par perfeito de asinhas veio embrulhado em finíssimo papel de seda e, benzido por um conhecido cardeal arcebispo brasileiro, que tinha vivido muitos anos no Vaticano com o Papa João XXIII.

Todos tinham que ter muita, mas muita paciência com Roger. Ai de quem ousasse colocar as mãos em suas asinhas. “Não mexam nas minhas asinhas! Minha mãe comprou prá mim, só prá mim, em Aparecida, saiam, saiam todos de perto, fiquem bem longe de mim!”


E lá ia o pequenino e gordinho anjinho, der nariz empinado, deslizando solenemente e muito prazeirosamente pela comprida e interminável procissão cheia de santos e santas em seus emproados andores, em meio a fumaça dos perfumados incensos balançados pelos coroinhas, cercados pelas severas beatas e beatos e Irmãos do Santíssimo, pelas ladeiras daquela vetusta cidade histórica mineira, conhecida pelo sobe e desce de suas ladeiras venerandas.
Só uma vez, durante uma procissão, um anjinho moleque mal intencionado, colocou o pé na frente e lá foi Roger ao chão, quebrando uma das asinhas, causando muita risada nos outros. Vocês podem imaginar um anjinho gordinho enfurecido! Pois é, foi o primeiro e maior barraco de sua vida. Roger levantou-se e, mesmo chorando muito, com raiva, deu um violento tabefe no anjo provocador e foi só peninha branca que voou para todos os lados. Um verdadeiro escândalo abafado com muito custo pelas zelosas beatas.

O Monsenhor daquela época vendo o tumulto armado na ala dos anjinhos, quase parou a procissão para ver o que tinha acontecido. Foi um fuá brabo, daqueles, mesmo em se tratando de anjos. Depois deste acontecimento Roger começou a perceber que realmente jamais iria para o céu, conforme queria sua mãe.

Na sala de aula, a professora perguntava –“O que é Rosinha, por que você está tão calado hoje, meu menino, cadê aquela alegria que você sempre estampa!?” Roger preferia não responder. Mas, com certeza, muitos dilemas e dúvidas já passavam no íntimo de sua mente, em sua personalidade em formação. Ficava assim, caidaço, quando percebia as brigas familiares em casa.

Percebia o esforço de sua mãe para criar todos os filhos igualmente. E ele, como ficava nesses momentos? Por que era tão diferente dos outros? Não deixava passar em brancas nuvens nenhuma ofensa ou ironia à sua pessoa.

E sofria, quieto, deixando algumas lágrimas correrem soltas. E pensava – Porque as pessoas não me deixam ser bom? Porque tenho de cobrar tanto para sobreviver, como se tivesse que matar dois leões por dia e ainda era pouco? Acham que eu não tenho sonhos? Carinho? Percebia que recebia dobrado da mãe, como se ela quisesse protegê-lo das amarguras do mundo. Quanto aos outros, a indiferença se impunha, muitas vezes.

Mãe e filho num canto, no silêncio da casa vazia e os doces e sábios conselhos daquela mulher vivida e sofrida no cotidiano rude de uma cidade do interior das Minas Gerais. Só ela sabia e como sabia!? Daí, Roger, na sua passagem para a adolescência, ia se acalmando e retomando o fio de prumo de sua vida. E tudo passava. Como a vida ia passando.


Sempre muito gordo, decidiu, depois de muita reflexão sobre a existência, não freqüentar muito a igreja. Ia de vez em quando em busca de paz. Meditação. Era isso que o deixava mais descontraído quando a barra pesava.Tinha lá seus divertimentos e não perdeu nunca a alegria de viver,apesar de... Se empenhava muito e fazia o diferencial entre os empregados das lojas em que trabalhou Era estimado pelos patrões. Em especial por um com quem aprendeu o fino trato e o grande valor da amizade. De igual para igual.

E foi assim que terminou os estudos básicos e cursou uma faculdade. Se orgulha de ter ensino superior num país onde pobres ou de classe média baixa quase nunca chegavam a isso. Foi lendo muito e convivendo com seus professores que pegou gosto pela cultural geral. Adora carnaval. Vemos agora Roger numa grande cidade do Vale do Paraíba, como carnavalesco de uma tradicional Escola de Samba que sairá neste carnaval com o tema de um show de transformistas – As Cantoras do Rádio –

Tem orgulho de dizer que pagou parte da Faculdade em Taubaté, com o dinheiro que ganhou divertindo as pessoas num grupo de “Negas Malucas”, aos fins de semana, num famoso clube da cidade. Também formado em Pedagogia já é efetivo numa escola estadual e exerceu o cargo de Orientador Pedagógico. A vida o fez inteligente e esperto, podemos dizer assim.

É excelente profissional. Continua brigando pelo seu espaço. Tem idéias próprias e muitas vezes entra em choque com as pessoas em sua profissão quando cisma que elas o querem passar prá trás. E não deixa. Nunca deixará. Como Jô Soares, em seu famoso bordão - Ame um gordo antes que acabe –assim Roger chega aos 40 anos de sua plenitude espiritual.

Chorou desconsoladamente em cima do túmulo onde, morta, fui enterrada. Como mãe deste amado filho que adotei ainda bebê, percebi, senti bastante e do lado de cá onde estou, quero que saiba que sempre acompanharei seus passos.Nunca o abandonarei como fez a sua mãe biológica que seguiu seu rumo na vida e nunca mais foi vista.

Com muito carinho te vejo sempre. Principalmente nas madrugadas de sua vasta solidão. Em seu quarto, procurando na Internet alguém para conversar ou nas ruas solitárias em sua busca constante por um mundo mais sensível e mais tolerante com todos. Alguém que queira entender o que se passa na cabeça de uma pessoa gorda.

(DEDICO ESTA HISTÓRIA PARA TODAS AS PESSOAS QUE SOFREM DE OBESIDADE NESTE PAÍS QUE BRIGAM PELA SUA AUTO ESTIMA MUITAS VEZES DERRUBADA POR CAUSA DO ENORME PRECONCEITO QUE AINDA EXISTE)